quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Nasce Uma Estrela/A Star Is Born (2018)


Nunca fui fã de filmes de romance. O excesso de cenas "bonitinhas" atrapalham a me identificar com o gênero, o que também me distancia dos musicais, onde a trama pausa para os atores cantarem e dançarem alguma música que todos já sabem. Porém, por não saber exatamente qual seria a história do filme (pois não assisti às versões anteriores, de 1937, 1954 e 1976), imaginei que estaria empolgado para um filme musical (engano meu) sobre um romance (bingo!) com uma cantora se arriscando como atriz...e tive uma grata surpresa ao descobrir que nos dois aspectos onde acertei, o filme se sai muito bem.

O músico Jackson Maine (Bradley Cooper) descobre a jovem Ally (Lady Gaga), por quem se apaixona. Jack a ajuda a realizar seu sonho de se tornar cantora.

A direção de Bradley Cooper, estreante na função, é sólida e passa visualmente a emoção dos personagens, como, por exemplo, na primeira cena, quando, no show de Jack, a câmera se movimenta com instabilidade, dando close-ups em lugares irrelevantes, como as costas de algum personagem, colocando o público junto da embriaguez de Maine. Além disso, o cineasta demonstra através da iluminação os momentos em que o casal está tendo atrito no relacionamento, utilizando as luzes vermelhas e azuis em cada personagem, demonstrando seu distanciamento. Outro ponto em que o diretor acerta em cheio é ao saber exatamente o quanto segurar uma cena que é relevante, o que cria tensão pela incerteza do que irá acontecer a seguir e, quando a resposta vem, ela tem muito mais impacto, seja para o alívio ou para a angústia do espectador.

O romance de Maine e Ally funciona muito bem, principalmente pelas várias facetas de seus personagens. Apesar  da personagem de Gaga amar Jackson, é perceptível o constrangimento pelo namorado em alguns momentos; por outro lado, Maine ama Ally, mas nutre certa inveja de seu sucesso, além de se afundar nas drogas e na bebida pela frustração de sua carreira ter desandado, o que o faz ter alguns comportamentos agressivos com a moça, algo que a moça rebate, mas entende a situação que Jack se encontra. E é surpreendente o quanto Lady Gaga consegue demonstrar as camadas de sua personagem com pouca experiência como atriz, ficando lado a lado com Bradley Cooper, que já é um ator experiente, indicado três vezes ao Oscar de Melhor Ator, e caminha para mais uma indicação. A interpretação de ambos é sutil, mas passa com clareza o que cada personagem sente.

As músicas originais decaem de qualidade ao decorrer do filme. Enquanto no início as excelentes "Maybe It's Time" (que lembra bastante às músicas de Simon & Garfunkel) e, principalmente "Shallow", são capazes de arrepiar o espectador mesmo sem conhecer muito da estória e dos personagens, à medida em que o filme progride, as músicas se tornam pop's fracos e clichês, sem utilizar o vasto potencial apresentado por Gaga nas primeiras canções.

Porém, no segundo ato o filme perde o ritmo, os conflitos são tão sutis que parecem agregar pouco à história, a tensão passa a estar presente principalmente em alguns momentos únicos, separados, sem algo que deixe a trama interessante.

Ainda é cedo para dizer, mas não será nenhuma surpresa se Nasce Uma Estrela estiver indicado às categorias de Melhor Filme, Direção, Ator - Bradley Cooper, Atriz - Lady Gaga e Melhor Canção Original - Shallow.

Nasce Uma Estrela começa e termina melhor do que se desenvolve, é irregular narrativa e musicalmente, mas a força das atuações, os personagens multidimensionais e as músicas iniciais e finais são capazes de arrepiar e emocionar qualquer espectador.

Nota: 8,5/10

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Seabiscuit (2003)


Historias de animais fofinhos, duras vidas e como seus dilemas são superados: Seabiscuit não poderia ser um filme com mais intenção de fazer o público chorar a qualquer custo; mas talvez esse seja o menor de seus problemas.

Charles Howard (Jeff Bridges) é um milionário que ganhou Seabiscuit, um cavalo de pequeno porte e indisciplinado que nunca teve grande destaque nas corridas. Howard decide o treinar para torná-lo competitivo, contratando o jóquei John "Red" Pollard e o treinador Tom Smith, conhecido no meio por sua capacidade de se comunicar com cavalos.

O grande problema do longa é praticamente não andar, muito menos galopar (entenderam o trocadilho? Ha ha ha...). Nada contribui para que o filme seja interessante de se assistir. O primeiro aspecto disso é sua trama previsível e desinteressante: a partir das primeiras cenas, você sabe exatamente o que vai acontecer; e quando algo inesperado acontece, é possível perceber o que acontecerá logo após aquilo - e, aliás, algo que já é raro de acontecer no filme só piora em alguns momentos, como em uma determinada cena onde um personagem "pressente" o que está acontecendo com Seabiscuit através de um problema de saúde; a cena é ilógica e exagerada, fazendo com que algo que deveria ser impactante soe apenas decepcionante.

Além disso, todos os personagens têm passados, mas nada os influencia a fazer algo, ou os atrapalha psicológica ou emocionalmente. Seja um personagem que perdeu parentes importantes, ou que estão cegos, isso quase nunca interfere no roteiro, tornando os personagens profundos, mas ainda assim rasos; conhecemos seus passados, mas se isso não os atrapalha, se torna apenas irrelevante.

Outra coisa que atrapalha o filme são alguns momentos onde há uma pausa na trama para narrar o contexto histórico do momento, prejudicando totalmente o ritmo do longa. Após uma corrida de cavalos muito bem montada (os únicos momentos onde o filme não dá sono, por sinal), o momento de explosão de adrenalina tem uma freada brusca para explicar o momento em que o país estava, que, aliás, não faz tanta diferença no roteiro, como, na verdade, nada faz.

Porém, Seabiscuit não deixa de ser um filme extremamente belo de se assistir. As cores vivas da direção de arte, ressaltadas pela composição e iluminação da cinematografia fazem desse longa visualmente agradável, apesar da ausência de um bom roteiro. Cada frame/enquadramento caberia perfeitamente como um papel de parede, como se fosse uma boa experiência para se ver sem som (ou, no caso, sem legendas).

Mas o filme erra feio ao ter uma direção pesada. Gary Ross tenta chamar excessivamente a atenção para si mesmo, utilizando jump cuts e match cuts excessivos, que causam estranheza ao assistir. No caso do primeiro, um personagem volta na posição inicial da cena apenas para dizer que algum tempo se passou e ele retornou lá (-Mas isso já não aconteceu?); no segundo, na verdade, um personagem completa a sua frase em outra cena, como: "[Cena 1] - Esse homem é...[Cena 2] irrelevante". Além de causar certa estranheza, como dito, esses cortes excessivos tiram a naturalidade do filme, saímos da diegese, nos lembramos que não estamos vivenciando a história, mas assistindo a um longa.

Seabiscuit tem seus longos 140 minutos são ainda piorados por uma história desinteressante, previsível e emocional demais. É inofensivo, apenas esquecível; agradável visualmente, pode ser interessante de se assistir enquanto faz alguma coisa a mais (caberia muito bem em um filme de Sessão da Tarde) e, por mais que as corridas de cavalo sejam dinâmicas, as quebras de ritmo provocadas pela explicação do contexto histórico prejudicam todo o andamento do longa.

O filme teve 7 inexplicáveis indicações ao Oscar (Filme, Roteiro Adaptado, Mixagem de Som, Direção de Arte, Edição, Figurino e Cinematografia), e perdeu quase todas para O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei.

Nota: 4,0/10

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O Homem Elefante/The Elephant Man (1980)



É comum ter certas frustrações com algo que não saiu como o esperado, ou ter a impressão de que, a cada dia, a vida fica mais curta e os sonhos ficam mais difíceis de serem alcançados, algo que é alvo de piadas de extremo mal gosto atualmente, e digo isso sendo um grande apreciador do humor negro; romantizar uma doença séria como a Depressão, que afeta milhares de pessoas ao redor do mundo e que é imperceptível por muitas vezes acarreta a famosa história do "menino que gritava 'lobo'". Algo que começa como uma piada pode se tornar sério após algum tempo, e isso só é descoberto quando uma tragédia aconteceu. Porém, algumas pessoas com mais dificuldades que nós são, admiravelmente, mais otimistas e por vezes até mais felizes que as pessoas que, às vezes, parecem ter tudo nas mãos e ainda assim são infelizes (e, com isso, não estou julgando a felicidade ou a tristeza de cada um, você entende os seus problemas e eu não tenho a menor autoridade de falar sobre eles).

O Homem Elefante foi baseado em fatos, e narra a história de Frederick Treves (Anthony Hopkins), um cirurgião inglês que resgata John Merrick (John Hurt), um homem com uma severa desfiguração corporal que fazia parte de um "show de horrores" de um circo, onde era conhecido como ""O Homem Elefante".

Um ponto importante de O Homem Elefante (rimou) é que seus personagens não têm suas definições claras, como puros heróis ou vilões. O dono do circo utilizava a imagem "assustadora" de Merrick para ganhar dinheiro, é verdade; mas se o circo não existisse, como seria a vida do homem desfigurado? Ele provavelmente não teria emprego, não teria o que comer, viveria escondido, talvez até fosse espancado na rua diversas vezes. Por mais horrível que seja a forma de vida de ambos, talvez seria pior se não fosse assim. Por outro lado, Treves parece usar a desfiguração de John para se provar um bom doutor, por vezes mostrando como é incrível sua deformidade; ou seja, ambos exploram as peculiaridades do homem para ganhar dinheiro, cada um de sua forma. Uma pena que o roteiro prefira deixar claro em alguns momentos as questões impostas pelo filme com diálogos expositivos e óbvios. E é um irônico como o cineasta conhecido por fazer filmes confusos tenha permitido explicações de algo ainda mais claro

Dirigido por David Lynch, o longa é denso e pessimista, e a fotografia em preto e branco ajuda a reforçar esse sentimento, como se a vida do personagem-título fosse desbotada, diferente de todas as outras. Além disso, o filme é silencioso, a quase ausência de trilha sonora deixa a atmosfera ainda mais solitária e intimista. O andamento da trama é lento, o que pode atrapalhar um pouco a conexão com o filme, pois não há grandes acontecimentos até o terceiro ato, mas isto dá espaço para o desenvolvimento da relação de seus personagens principais e seus dilemas pessoais. Ainda assim, não é uma história para assistir e se divertir, tampouco terminá-la feliz. Recomendo não o assistir em uma tarde ensolarada.

* Off-topic: este foi o primeiro filme de David Lynch que tive o prazer de assistir, pretendo me aprofundar na extensa obra desse diretor tão renomado atualmente *

Interpretando John Merrick, John Hurt teve um difícil trabalho em dar vida a seu personagem, principalmente com uma pesada maquiagem por cima, tendo como recursos apenas seus olhos e sua voz para tornar o homem real, os utilizando com maestria, compondo um personagem inocente e por muitas vezes assustado, agindo por vezes de maneira infantil, mas também com grande admiração por Frederick Treves, que considera seu amigo e uma pessoa "muito amável". Ao seu lado, Anthony Hopkins constrói o cirurgião como um homem inicialmente apático, colocando o trabalho e a curiosidade pelo Homem Elefante acima de tudo. Porém, a amizade e o respeito pela evolução do amigo toma conta do médico, o tratando de igual para igual, e não como um pobre coitado. [Até o final desse parágrafo, há um spoiler de diálogo que pode impactar no filme]. Um bom exemplo disso é quando Merrick pergunta ao cirurgião se sua doença tem cura. Treves não hesita em responder negativamente, apesar de demonstrar certa pena do homem.

Porém, o filme peca ainda no roteiro. Além de seus diálogos que expõem as temáticas e questionamentos da trama, a quantidade de Deus Ex Machina (quando a situação se resolve por uma coincidência, ou porque o roteiro decidiu que aquilo deveria ser resolvido de alguma forma) pesa um pouco em sua naturalidade. Os obstáculos são resolvidos de um segundo para o outro, com um personagem aparecendo na hora certa para salvar o que acontece.

O Homem Elefante impõe questões importantes, ainda mais se o tomarmos como uma metáfora para o racismo e a homofobia. Não é tão agradável de assistir (como não poderia ser, mesmo), possui alguns diálogos que explicam as questões que o espectador já entende e alguns obstáculos resolvidos de maneira muito fácil podem diminuir ainda mais a intensidade da história, mas as relações de seus personagens, os dilemas impostos e suas multidimensionalidades são ainda mais relevantes.

O filme foi indicado a 8 Oscars (Filme, Diretor, Ator - John Hurt, Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de Arte, Trilha Sonora e Montagem), mas não venceu nenhum. Infelizmente, John Hurt teve o azar de concorrer no mesmo ano em que Robert De Niro fez uma das melhores atuações do cinema, interpretando Jake La Motta, do filme Touro Indomável, fazendo a derrota do primeiro ser compreensível.

Nota: 8,5/10

sábado, 6 de outubro de 2018

Ray (2004)



Filmes biográficos de celebridades nunca me chamaram muita atenção, por algumas vezes deixar a impressão de que o único motivo de tais filmes terem sido feitos com a única intenção de fazer o público chorar e ter uma mensagem motivacional (ainda mais se tal personagem possuir alguma deficiência). O problema é que, assim, os filmes parecem explorar seus personagens de maneira maniqueísta, tratando-os como seres impecáveis ou como "coitadinhos". Mas, felizmente, Ray adota a abordagem contrária, mostrando justamente os defeitos de personalidade do mestre da música soul americana, Ray Charles, como seu vício em drogas e as diversas traições que cometeu enquanto estava na estrada.

(Devaneio: spoilers de filmes biográficos são spoilers? Hmm...)

E o fato de seus defeitos serem demonstrados durante todo o filme dá um toque especial a Ray, pois dá tridimensionalidade ao "personagem", o transformando em uma pessoa real (e o quão irônico é perceber que, muitas vezes os filmes baseados em histórias reais têm personagens mais falsos que os longas totalmente fictícios). Seria muito fácil mostrar o quanto foi difícil para Ray Charles tocar piano por ser cego, como sua vida fora difícil e como sua deficiência o transforma em um ser intocável e digno de inspiração. Vemos todos os problemas de Ray, seus desvios de caráter, que ele foi uma pessoa que errou, e isso, na verdade, deixa a pessoa ainda mais admirável, já que conseguiu superar todas as adversidades (ou quase todas).

Mas Ray tem seus primeiros problemas quando começam os flashbacks. Inseridos quase sempre a qualquer momento no filme, as cenas que se passam na infância de Ray Charles não soam naturais; o filme pára em um determinado momento para mostrar o passado de Ray que não há nenhuma ligação com a cena anterior para também voltar em algo que não há qualquer conexão com o que o flashback acabou de mostrar, tirando a fluidez do filme. 

O filme também tem sua parcela de sentimentalismo, e essa parcela diz respeito às memórias de Ray, e isso é demonstrado especialmente pela cinematografia e direção de arte, que passam dos tons mais escuros e desbotados dos tempos "atuais" para os verdes saturados da juventude do personagem. Na verdade, inicialmente achei que isso estaria ligado ao fato de, na infância, Ray ainda enxergar, por isso as cores estariam mais vivas, porém, (spoiler) após o garoto perder a visão, a cinematografia continua a mesma, jogando toda a minha teoria no lixo. Mas esses dois fatores apenas contribuem para a tentativa de forçar o choro do público, mostrando também através do roteiro a "dura infância" do garoto e como isso afeta também a sua vida adulta, já que o personagem constantemente sofre de alucinações em momentos aleatórios, e servem para pouca coisa. Mas apesar das quebras de ritmo (que pesam ainda mais as longas 2h30m do filme), os flashbacks não são um desperdício total, por nos apresentar uma das melhores personagens do filme, Aretha Robinson, a mãe de Ray. Os conflitos da personagem (que prefiro não me aprofundar para poupar mais possíveis spoilers) são a chave para não fazer toda a falta de fluidez acontecer em vão.

O filme derrapa ainda mais nas cenas finais, quando Ray tem algumas alucinações e reencontra sua família na casa onde passou a infância, onde o sentimentalismo ultrapassa os limites e acaba soando mais falsa do que qualquer outra recordação do personagem. 

Interpretado brilhantemente por Jamie Foxx, o ator encarna Ray Charles, se remexendo enquanto toca, se coçando pelo vício em heroína...os trejeitos de Ray Charles foram absorvidos pelo ator, que ganhou o merecido Oscar (curiosidade: dos cinco atores indicados ao Oscar no ano de 2005, apenas Clint Eastwood interpretou um personagem fictício, pelo filme Menina de Ouro).

O filme foi indicado a 6 Oscars (Filme, Diretor - Taylor Hackford, Figurino, Montagem, Ator - Jamie Foxx, Mixagem de Som, tendo vencido essas duas últimas). 

Ray é um pouco longo demais, suas 2h30m são ainda mais comprometidas pelas quebras de ritmo provocadas pelos flashbacks, mas retratar Ray de maneira verossímil através da excelente atuação de Jamie Foxx salvam o filme de ser ruim (além da ótima trilha sonora composta pelos hits do cantor, que o deixam ainda mais divertido).

Nota: 7,5/10

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Os Melhores Anos de Nossas Vidas/The Best Years Of Our Lives (1946)



Nunca fui uma pessoa criativa. Não conseguia (e ainda não consigo) ter ideias para criar estórias, desenhos, músicas, qualquer coisa. Por isso, o sonho de ser roteirista sempre foi um obstáculo para mim: a área que eu mais admiro, e a que provavelmente mais teria dificuldade em exercer. Mas, algum tempo depois de assistir Manchester À Beira-Mar (meu filme preferido), a vontade de escrever roteiros sobre personagens quebrados se tornou cada vez mais forte, quando, um dia, tive a ideia de escrever um estória sobre um homem que volta da guerra e tem que lidar com seus "inimigos interiores" e aprender a viver sua vida como era antes. Finalmente uma ideia genial!
...se não tivesse sido filmada há 72 anos.

Três soldados americanos enfrentam dificuldades de readaptação ao voltar para casa após a Segunda Guerra Mundial.

Com quase 3h de duração, o maior problema do filme é demorar um pouco mais do que o necessário para ficar interessante. Após aproximadamente 1h20m de projeção, os conflitos começam a se estabelecer de verdade para todos os personagens. Até chegar nesse ponto, a trama mais interessante era a de Homer Parrish (Harold Russell), que tem as mãos amputadas na guerra e precisa aprender a conviver principalmente com o julgamento de sua família e da sociedade. Infelizmente, além de ser a história mais interessante, é também a menos explorada, dando preferência às de Fred Derry (Dana Andrews) e Al Stephenson (Frederic March). Na verdade, o único personagem afetado desde o princípio pela guerra é Homer. Tanto Fred quanto Al têm arcos interessantes, mas eles tomam um pouco mais de tempo para serem desenvolvidos, o que torna o filme entediante de início. Apesar disso, uma das melhores cenas de Os Melhores Anos de Nossas Vidas se passa justamente em seu início, quando os soldados finalmente reencontram suas famílias

Aliás, o desenvolvimento de ambos os personagens é um dos maiores acertos do roteiro. O que no início parecia ser perfeito começa a desmoronar cada vez mais, a mudança psicológica dos personagens (especialmente de Fred) torna o começo tedioso do filme quase redimível. Outro ponto interessante que o roteiro aborda de maneira sutil é que os três veteranos atuaram em áreas diferentes na guerra: Homer era soldado na Marinha, Fred bombardeava os inimigos pelo ar, enquanto Al era soldado por terra; ou seja, não importa em qual parte da guerra a pessoa esteja, ela destrói emocionalmente a pessoa da mesma forma, deixando claro que os melhores anos da vida dos personagens na verdade foram antes da guerra mudar suas vidas.

O diretor William Wyler também merece destaque no filme. Trabalhando com a movimentação dos atores e da câmera, estabelece visualmente quando um personagem apoia o outro em uma certa discussão, ou quando a conversa muda de tom, ou até mesmo quando certo personagem é agressivo com outros, o filmando de baixo para cima e ocupando quase o quadro todo, o transformando em uma figura quase monstruosa. Outro momento que vale o crédito é um em que Wyler utiliza os vários espelhos de um banheiro para filmar de maneira elegante duas personagens conversando, movimentando a câmera e fazendo o plano ser ainda mais interessante de ser assistido. O diretor também prefere ser mais sutil em alguns momentos importantes do filme, como no momento em que Homer reencontra sua família, que se assusta ao ver que o ente querido não tem mais as mãos. Um diretor menos experiente faria close-ups na família de Homer, ou em seus ganchos (ou nos dois), mas Wyler sabe que o espectador entende aquele momento sem precisar jogar na cara o que acontece.

Os três atores principais traduzem com clareza todos os conflitos e as mudanças que seus personagens passam durante o filme. Destaco a atuação de Harold Russell, que na verdade não era ator, mas sim um veterano da Segunda Guerra. Harold foi o primeiro ator não-profissional a ganhar um Oscar, fato que veio a se repetir apenas em 1985. Porém, Myrna Loy (que interpreta a esposa de Al, Milly) atua de maneira confusa, quando em alguns momentos ela parece triste ou com vergonha de algo, mas no plano seguinte demonstra felicidade com a mesma situação.

Outro fato importante de ressaltar é que o filme foi lançado apenas um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial, o que pode explicar o fato de vencer 7 dos 8 Oscars a que foi indicado: Filme, Direção, Ator - Frederic March, Ator Coadjuvante - Harold Russell, Roteiro, Trilha Sonora, Fotografia e Mixagem de Som, tendo perdido apenas o último (além de um prêmio especial para Harold Russell por "trazer coragem e esperança para os veteranos de guerra").

Os Melhores Anos de Nossas Vidas pode ser um pouco longo demais e arrastado no início, mas se redime pela construção dos personagens e a direção de Wyler.

Nota: 8,0/10

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O Príncipe das Marés/The Prince Of Tides (1991)


Há algum tempo, estou fazendo uma maratona dos filmes indicados/vencedores do Oscar. Alguns desses filmes são desconhecidos pelo público em geral, quase todas as vezes por ter um filme mais famoso no ano (As Horas em 2002, Boa Noite e Boa Sorte em 2005, Sideways em 2004...filmes tão bons quanto os renomados do ano, mas esquecidos). E esse foi o caso de O Príncipe das Marés, dirigido por Barbra Streisand. Em um ano onde os indicados eram ("apenas") O Silêncio dos Inocentes, e JFK, é comum não prestar tanta atenção nos outros indicados que nem se ouviram falar...mas não se imagina que reservam uma grata surpresa ao assistir.

Tom Wingo (Nick Nolte) é um treinador de futebol americano desempregado que vive na Carolina do Sul. Quando sua irmã, Savannah (Melinda Dillon) tenta cometer suicídio, ele vai a Nova York para apoiá-la, e lá se envolve com Susan Lowenstein (Barbra Streisand), a psiquiatra que cuida dela.

Ao ler esta sinopse, fiquei com um pé atrás antes de assistir ao filme; nunca fui muito fã de filmes românticos, e pior: a motivação para tal romance acontecer parecia um tanto quanto exagerada e egoísta, já que a sinopse faz parecer que Tom e Lowenstein ignoram o fato de Savannah ter tentado tirar a própria vida, e apenas vivem um amor no filme. Pelo contrário: durante boa parte da trama, esse tal relacionamento amoroso é praticamente ignorado. Em poucos momentos Lowenstein e Tom se encontram fora do consultório da psiquiatra, onde, na verdade, ela pergunta a Tom como fora sua vida e como a irmã era na infância.

Barbra Streisand conduz o filme da maneira certa, expressando sonora e visualmente todo o caos de Nova York, deixando Tom pressionado por carros e pelas pessoas, com o som irritante de várias buzinas ao mesmo tempo, refletindo também a irmã do Tom, uma personagem mais caótica que o irmão. Essa imagem se opõe à criada quando o protagonista está na Carolina do Sul, cidade que tanto ama por ser mais pacífica, onde se encontra rodeado por sua família, especialmente suas filhas.





Além disso, a diretora consegue expressar muito bem com um simples plano o distanciamento que Tom possui com sua esposa, Sally (Blythe Danner). Em outro momento, quando Lowenstein revela ter um marido, a figura dele em um pôster parece formar uma barreira entre os dois.




Vale ressaltar que isso só é possível pela excelente fotografia de Stephen Goldblatt, que capta estes e outros momentos de maneira belíssima, fazendo com que o filme seja uma experiência visual incrível.

Porém, o grande ponto forte do filme é o roteiro: mostrando a origem da família de Tom, podemos entender todos o que moldou a personalidade de cada um deles, sendo Tom um personagem extremamente sarcástico e tentando sempre contar piadas para "quebrar o gelo", e Savannah preferindo esquecer a cidade interiorana onde passou a infância, preferindo viver a fase adulta em uma cidade com a atmosfera contrária.

Dentre as atuações, o destaque é para Nick Nolte, que interpreta Tom Wingo como um personagem real, que convence mesmo no lado sarcástico quanto nos lados mais íntimos, quando conta algo de sua vida.

Porém, o filme peca quando ao chegar nos momentos finais. A partir do momento em que conhecemos o marido de Lowenstein, ele se apresenta como um "vilão" frágil, sendo um personagem tão arrogante que em nenhum momento parece uma ameaça para o convívio entre Tom e Susan. Por exemplo, em certo momento, ele convida o protagonista para um jantar em sua casa apenas para insultá-lo na frente de seus amigos e (pior) de sua esposa, agindo de maneira tão imbecil que fica claro desde o começo qual será a reação de Susan ao presenciar tal acontecimento. Além disso, também no final do filme, os dramas psicológicos que envolviam o passado de Savannah e Tom que eram o destaque da trama são abandonados, dando prioridade ao dito romance entre o protagonista e a psiquiatra, que enfraquecem consideravelmente o filme.

O filme foi indicado a 7 Oscars (Filme, Ator - Nick Nolte, Atriz coadjuvante - Kate Nelligan, Roteiro adaptado, Trilha Sonora, Fotografia e Direção de Arte). Mereceria vencer alguma dessas? Talvez Fotografia, mas os concorrentes no mesmo ano eram muito mais fortes. Apesar de começar melhor do que termina, O Príncipe das Marés é uma pérola injustamente esquecida e perdida durante o tempo que merece mais atenção do público.

Nota: 9,0/10

domingo, 23 de setembro de 2018

Erin Brockovich (2000)


Erin Brockovich pode ter uma certa "má fama" por ter levado um Oscar de Melhor Atriz considerado injusto, fazendo pessoas torcerem o nariz para a obra, mas certamente é um filme que merece mais atenção, principalmente pelos temas retratados.

Erin Brockovich (Julia Roberts) é mãe solteira de três filhos que trabalha em um pequeno escritório de advocacia. Quando descobre que a água de uma cidade no deserto está sendo contaminada e espalhando doenças para os habitantes, convence seu chefe a deixá-la investigar o assunto.

A grande força de Erin Brockovich consiste em sua personagem-título. Julia Roberts a interpreta de maneira real e sutil, nos fazendo empatizar com a personagem em poucos minutos de filme. Desde os belos sorrisos de Erin até os momentos em que briga com certos personagens, não deixamos de nos importar com a personagem, e a interpretação de Roberts é essencial para tornar a personagem crível, dando a ela seu primeiro (e até então, único) Oscar de Melhor Atriz.

Destaque também para o chefe de Brockovich, Ed Masry, interpretado magistralmente por Albert Finney, compondo o personagem também com carisma, que parece sempre estar assustado, hesita em responder a Erin, como se na verdade ela fosse o chefe dele, sem deixar de demonstrar respeito a ela, já que é uma peça importantíssima no caso tratado.

Apesar de ser considerado um drama, o diretor Steven Soderbergh adota uma abordagem cômica em alguns momentos, algo que Soderbergh trabalha muito bem, deixando a obra consistente tanto em momentos cômicos quanto em cenas mais dramáticas. O tom de cores mais quentes retratados tanto pela fotografia quanto pela direção de arte contribui ainda mais para essa abordagem, também retratando a personagem de Erin: simpática e bela, mas também forte e independente. Steven Soderbergh foi indicado ao Oscar de Melhor Direção por esse trabalho, curiosamente, perdendo para ele mesmo por Traffic, também de 2000.

O roteiro também é um ponto forte do filme, pois trata de temas relevantes e pesados como Feminismo e Aparência x Essência sem ficar sermônico demais, o que facilita o acesso de um público que não está tão interessado assim nessas questões. Porém, há alguns pequenos deslizes. O primeiro diz respeito a certos diálogos que não soam tão naturais, às vezes expositivos. Por exemplo, em um certo momento, Erin briga com seu novo vizinho, George (Aaron Eckhart), por fazer muito barulho com sua moto e atrapalhar o sono de seus filhos. Ele, por sua vez, pede desculpas a Brockovich e pede seu número de telefone para lhe telefonar (óbvio). Ela, ainda com raiva, responde com os "números de sua vida" (três filhos, suas idades, quantas vezes foi casada, etc.), e, por mais que essa resposta possa demonstra a força da personagem principal, não é natural, ninguém responderia a algo dessa maneira. Em outro momento, Erin briga com seu chefe, mas essa briga acaba em risadas pelas duas partes, e, ironicamente, Ed solta "Às vezes eu te odeio"; Brockovich, rindo, responde "Não, você me ama.", algo que fica claro, dado o momento em que ambos acabaram a discussão.  Outro problema do filme é sua trama (um pouco clichê) envolvendo a grande empresa malvada que pode destruir o mundo, causar a morte de milhares de pessoas, ou mesmo ir contra a lei. Sei que o filme foi baseado em fatos reais, portanto, isso não o atrapalha, mas essa questão foi abordada várias vezes antes de maneiras melhores, como em O Informante (1999), Síndrome da China (1979), JFK (1993), e o espetacular Todos os Homens do Presidente (1976).

Indicado a 5 Oscars (Filme, Direção, Atriz - Julia Roberts, Ator Coadjuvante - Albert Finney e Roteiro Original), Erin Brockovich é um filme subestimado, que trata de questões importantes e atuais da maneira certa. Apesar de ter alguns pequenos problemas, vale especialmente pelo carisma de seus personagens principais.

Nota: 8,5/10

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Festim Diabólico/Rope (1948)


Até onde o egoísmo é saudável? É comum dizer que ele não é saudável, mas todos nós temos nossos orgulhos, por menores que sejam. Por mais irritante que a arrogância às vezes seja, (quase) ninguém é capaz de fazer qualquer coisa apenas para satisfazer seu ego, mas Festim Diabólico aborda justamente isso: o quanto a arrogância em excesso pode ser prejudicial não só para a pessoa em si, mas para os outros a seu redor...e o pior de tudo é que o filme foi baseado em fatos reais.

Em Nova York, Brandon (John Dall) e Philip (Farley Granger) assassinam seu amigo David, por se considerarem intelectualmente superiores a ele. Com toda frieza e arrogância, resolvem provar para eles mesmos sua habilidade e esperteza: esconderão o corpo em um grande baú, que servirá como mesa e estará exposto no meio da sala do apartamento deles, durante uma festa que será realizada logo em seguida.

No começo do filme, a trama de Festim Diabólico pareceu fraca demais, apenas uma motivação qualquer para fazer um filme de suspense. Porém, aos poucos, isso deixa de ser somente um ponto de início da trama e passa a ser um elemento para desenvolvimento dos personagens principais, especialmente de Brandon, já que Philip logo após o assassinato se demonstra inseguro por cometer tal crime, ficando gradativamente mais nervoso e com medo por tanta pressão dentro do apartamento, enquanto Brandon demonstra a frieza e a calma de um psicopata.

Dirigido por Alfred Hitchcock, o filme tem seu ponto forte justamente no que o diretor é famoso por fazer com maestria inigualável: o suspense. Durante seus rápidos 80 minutos, Hitchcock consegue deixar o espectador tenso com todos os elementos possíveis, desde algum personagem passando ao lado do baú que esconde o cadáver até com simples diálogos que exploram o fato de seres "insignificantes" merecerem morrer.

O filme é até hoje celebrado por ser praticamente inteiro filmado "sem cortes". Na verdade, alguns cortes são visíveis, mas na maioria das vezes, Hitchcock esconde tais cortes passando a câmera pelas costas de algum personagem de terno, deixando a tela totalmente preta e voltando poucos segundos à frente. Isso não tira de modo algum o mérito do diretor em coordenar com perfeição o movimento da câmera e dos atores, uma vez que fazer um filme de 80 minutos sem cortes naquela época era impossível: os rolos das câmeras acabavam após pouco mais de 10 minutos, e teriam que ser trocados. Algumas críticas da época disseram que as tomadas longas pareciam apenas uma tentativa de Hitchcock chamar atenção para si mesmo (irônico), mas isso funciona, já que faz a festa parecer extremamente demorada e, por isso, aumenta ainda mais a tensão, pois os convidados parecem nunca irem embora da cena do crime.

Porém, Festim Diabólico tem apenas uma pequena falha, e diz respeito à construção dos personagens. Em diversos momentos, Philip fica visivelmente assustado e cada vez mais agressivo, bebendo excessivamente e ficando instável. Mas isso é plausível, o problema vem quando Brandon o incentiva a responder perguntas comprometedoras e deixa Philip tomar as rédeas da situação enquanto ele apenas assiste. Ora, não faria mais sentido ter a situação sob controle em vez de deixar o amigo totalmente despreparado cuidar disso?

No final das contas, Festim Diabólico pode ter uma história inicialmente fraca e uma pequena falha de personagem, mas o suspense criado por Hitchcock esconde esses deslizes dentro de um baú e os torna quase irrelevantes.

Nota: 9,0/10

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Quem Bate À Minha Porta/I Call First (1967)



"Um filme de Martin Scorsese". Pode ser difícil imaginar, mas, um dia, o nome do diretor dos clássicos Os Bons Companheiros, Touro Indomável e Taxi Driver não dizia nada, ou sequer estava no pôster (como na imagem acima). Diretores renomados atualmente começaram de algum lugar, e não tinham tanta fama assim...e no caso de Scorsese, infelizmente, não começou com um grande trabalho.

J.R. (Harvey Keitel) é um desempregado feliz da vida que passa seus dias saindo com seus amigos, em Nova York. Porém, quando ele reencontra uma amiga da faculdade, apaixona-se por ela e passa a questionar todos a sua volta e a própria vida.

Pelo menos é isso que a sinopse diz, já que a trama parece não ter tanto conflito assim. J.R. se encontra com os seus amigos e com sua namorada durante o filme inteiro, e nada atrapalha as duas coisas. Em alguns momentos ele questiona seus amigos e até mesmo sua namorada, porém, tudo isso se resolve em poucos minutos ou segundos. Por mais que J.R. brigue com seus amigos, na próxima cena vemos eles brincando novamente, fazendo com que pareça que nada realmente importa. E há ainda uma cena envolvendo uma estátua que parece ter grande relevância no decorrer da história, mas aos poucos ela é esquecida e não se justifica.

Além disso, a montagem também atrapalha o filme, não deixando muito claro o que seriam flashbacks e o que estaria acontecendo naquele momento. Ainda na montagem, algumas cenas são desnecessariamente longas, tomando até quatro minutos de projeção sem dizer muita coisa. Ainda  que relativamente curto (tem pouco menos que 1h30m), não faz sentido ter cenas tão longas que não agregam muito ao filme.

Porém, Quem Bate À Minha Porta tem seus acertos. Logo nos primeiros minutos, já vemos algumas características de Scorsese que viriam a ser repetidas em seus próximos trabalhos, como usar trilha sonora adaptada (principalmente de rock). Talvez a música que mais chama atenção é The End, do The Doors (aquela que toca no início de Apocalypse Now), já que é de uma banda famosa atualmente, mas que lançou seu primeiro álbum também em 1967, ano de estréia do filme. Ainda nos primeiros minutos, algumas cenas de briga lembram um pouco às protagonizadas por Tommy em Os Bons Companheiros.

Além disso, os diálogos são um prato cheio para os cinéfilos (que imagino que sejam os únicos que irão assistir a esse filme, devido a sua baixa popularidade). Em diversos momentos, J.R. e sua namorada conversam sobre clássicos do cinema, principalmente faroestes, como Rastros de Ódio e O Homem Que Matou o Facínora, fazendo também várias referências a John Wayne em específico.

Apesar disso, é perceptível o amadorismo do cineasta no começo da carreira (óbvio, já que ele tinha apenas 25 anos em 1967, não dá pra cobrar uma obra tecnicamente perfeita). Em algumas cenas, a câmera tem que se ajustar para não "cortar a cabeça" de certo personagem, enquanto em outra cena, o rosto de um ator é tampado por uma cadeira que está em sua frente, o que não parece proposital, uma vez que no próximo plano o rosto do ator é visível.


Quem Bate À Minha Porta não é um filme terrível, tem suas cenas divertidas e diálogos interessantes, mas a falta de conflito e a montagem confusa prejudicam consideravelmente a obra. Vale mais como estudo para entender como um dos maiores cineastas de todos os tempos começou, e, principalmente, como sua carreira foi crescente.

Nota: 5,5/10

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Apresentação

Oi, tudo bem? Meu nome é Harrison Duarte, tenho atualmente 18 anos, sou canceriano (irrelevante pra mim), e faço esse blog pra tentar apreciar ainda mais o cinema e passar o meu entendimento dos filmes pra vocês.

"Tá, mas por que esse nome"? Explico: no momento em que escrevo isso, estou fazendo um curso de Cinema no CAV - Centro Audiovisual de São Bernardo do Campo (pra também já ter uma noção de onde eu venho), e quero escrever sobre os filmes que assisto à medida que também vou aprendendo como eles são feitos e o quê olhar neles. Por isso, não ouso a chamar o que escrevo aqui de "críticas", pois acho que não tenho autoridade para isso; prefiro chamar de...na verdade, não sei ao certo sobre como chamar, não vou chamar de nada, talvez seja apenas uma opinião minha sobre o filme em questão...enfim, não importa.

Como o subtítulo diz, esse blog é mais como um "Diário de um aprendiz da Sétima Arte", mas não pretendo escrever qualquer coisa como: "gostei", "achei legal", "curti"...quero escrever de um modo que exercite meu senso crítico, pois uma área de meu interesse é o Jornalismo (Todos os Homens do Presidente e Spotlight podem ter decidido a faculdade que vou cursar), e espero ter o melhor texto possível, por mais que não os considere como críticas. Quero dizer onde o filme acerta ou erra na minha opinião.

Inclusive, acho que "na minha opinião" é uma frase que você deve imaginar sempre que ler algum texto daqui, já que a arte é subjetiva, e eu obviamente não vou ter a mesma visão que você, portanto, do mesmo jeito que você ama algum filme, eu posso odiá-lo, e vice-versa. E o melhor de tudo é que nós podemos amar ou odiar esse ou aquele filme na mesma intensidade, e continuamos sendo amigos. Esse é o grande diferencial da arte: ela não é a mesma pra ninguém, e isso gera debate, o que é sempre interessante (desde que feito de maneira sadia).

Vale ressaltar aqui também que, por causa desses motivos que citei acima, eu não tenho a mesma visão que a crítica ou o público tem. Alguns filmes ovacionados e/ou tidos como clássicos (como 8½, Gladiador e A Forma da Água) simplesmente não funcionaram comigo, do mesmo jeito que eu adoro alguns filmes considerados ruins (como X-Men 3), e vida que segue.

Enfim, é isso, sejam bem vindos(as) ao blog e vou deixar aqui algumas informações a mais de gostos meus (só por curiosidade):

Filme(s) preferido(s): Manchester By The Sea, O Poderoso Chefão, Todos os Homens do Presidente e Cassino
Série favorita: The Sopranos...não consigo assistir nenhuma série depois dessa
Diretor preferido: Martin fucking Scorsese
Banda/grupo musical preferida(o): Simon & Garfunkel
Podcast preferido: Não Ouvo (saudades Luide, Igor e Braian...)

Acho que só, vou deixar também meu perfil no Filmow e no IMDb para verem mais minhas notas de filmes e séries que assisti.

Filmow: https://filmow.com/usuario/harrisonduarte/

IMDb: https://www.imdb.com/user/ur69477215/?ref_=nb_usr_prof_0

Fogo Contra Fogo/Heat (1995)



Al Pacino e Robert De Niro são dois dos maiores atores do cinema, isso é inegável. E quem assiste a clássicos como Scarface, Touro Indomável e a trilogia O Poderoso Chefão entende o porquê dessa fama. Ambos tiveram carreiras parecidas: apesar de obviamente interpretarem papeis diferentes, são reconhecidos por filmes sobre crimes ou sobre a máfia (além dos já citados acima, Os Bons Companheiros, Um Dia de Cão e Caminhos Perigosos são alguns dos exemplos). Logo, era de se esperar que um crossover entre essas duas lendas acontecesse...e Michael Mann foi o diretor responsável por tornar isso real.
      
Em Los Angeles, Neil McCauley (De Niro) e sua gangue assaltam um carro-forte e roubam US$1,6 milhão de dólares em títulos ao comprador. Durante o assalto, sua gangue mata três policiais, o que faz o Vincent Hanna (Pacino), detetive da Divisão de Roubo e Homicídio, assumir o caso.
     
É curioso notar como uma trama tão simples pode gerar um filme tão diferente dos demais e, por isso, tão interessante. O diferencial de Fogo Contra Fogo na verdade está no desenvolvimento de seus personagens principais, a construção de seus arcos e como eles lidam com os acontecimentos do decorrer do filme, e como suas personalidades são contrastantes. Vincent, por exemplo, cuja profissão consiste em "manter a ordem" na cidade, não consegue cuidar nem de sua própria família, já que tem problemas com sua esposa, enquanto Neil, criminoso, tem um relacionamento saudável durante o filme, mesmo dizendo ser capaz de abandonar tudo em 30 segundos sem hesitar, caso necessário. Esse constrate também é ressaltado pela atuação de De Niro e Pacino. O primeiro constrói seu personagem como uma pessoa calma, com um tom de voz mais baixo, na medida que Al Pacino tem um personagem mais explosivo, gritando constantemente.

Para ressaltar essa natureza de seus personagens (seja no âmbito "profissional" ou no pessoal), Mann e Dante Spinotti, diretor de fotografia, optam por uma fotografia mais sombria, colaborados também pela direção de arte, que compõe os cenários de cores mais frias, sendo as únicas oposições quando Neil está com sua namorada, Eady (Amy Brenneman), e com seus amigos, onde a paleta de cores dá preferência a tons mais quentes.



O diretor também acerta ao conseguir criar a tensão necessária para que o filme funcione. E o roteiro é tão bem escrito que essa tensão é criada para os dois lados, parecendo mais como um jogo de xadrez, onde cada movimento pode mudar completamente a trama, e o fato dos personagens principais serem extremamente bem concebidos torna isso ainda mais palpável, já que não é possível torcer para apenas um deles, sempre pensando o que cada um vai fazer na próxima jogada.

Porém, Fogo Contra Fogo não é perfeito. Em alguns momentos, o filme se arrasta um pouco, tornando suas quase 3 horas de duração perceptíveis, algo que não acontece com alguns filmes maiores e com menos ação. Algo que também não contribui para isso é o fato de seu clímax acontecer uma hora antes do fim do filme, fazendo com que por mais que após isso a trama continue interessante, deixa a sensação de que o filme já estaria acabando, mas nunca acaba.

Outro ponto negativo do filme são alguns overactings (quando um ator "passa dos limites", gritando e gesticulando mais do que o necessário), principalmente de Al Pacino (vide imagem abaixo). Isso não compromete o filme, mas acaba gerando uma estranheza ao assistir.


(A título de curiosidade, se você pesquisar "Al Pacino overactings" 
e procurar imagens, os quatro primeiros resultados são de Fogo Contra Fogo)

Além disso, Robert De Niro e Al Pacino pouco se encontram durante o filme, estando em poucas cenas no mesmo plano, o que pode desapontar algumas pessoas, mas passa a ser previsível e aceitável, já que interpretam personagens adversários.

Fogo Contra Fogo possui alguns excessos, é arrastado em alguns momentos e pode desapontar um pouco pelo "épico encontro" acontecer por pouco tempo, mas vale por seus personagens e pela tensão.


Nota: 8,5/10