terça-feira, 9 de julho de 2019

O Vencedor/The Fighter (2010)



Os filmes de esporte, principalmente de boxe, seguem uma fórmula quase única. Tendo o clássico Rocky - Um Lutador como principal fonte de inspiração, é comum ver a mesma história nesse gênero, com diferenças leves de estrutura ou personagens. Além disso, O Vencedor conta com o diretor dos medíocres O Lado Bom da Vida e Trapaça, mais um fator a me desestimular a assisti-lo. Mesmo com todos esses pontos, é curioso como o filme é capaz de empolgar e fazer o espectador torcer por seus personagens.

Baseado em história real, o filme conta a trajetória do boxeador Micky Ward (Mark Wahlberg) até o título mundial dos pesos-leves. Ele conta com seu irmão, Dicky Eklund (Christian Bale), um ex-lutador que se transforma em treinador e quase perde a vida para as drogas e o crime.
O diferencial do filme não está na história, mas em como ela é contada e em seus personagens. A começar por Micky Ward: o caçula da família, Micky é tratado como indefeso pela família, tendo sua carreira controlada por seu irmão mais velho, que o treina, e sua mãe, Alice (Melissa Leo), a empresária. Já a namorada, Charlene (Amy Adams), toma a frente do namorado contra sua família, falando e tomando decisões por ele, chegando a dizer "Micky é adulto, pode pensar por si mesmo".

E tais personagens só funcionam pelas atuações. Enquanto Amy Adams interpreta Charlene como uma namorada mais dura e preocupada com a carreira de Micky, Melissa Leo, apenas 11 anos mais velha que Wahlberg, aparece irreconhecível como a mãe decadente de Micky, transitando entre momentos aparentemente afetuosos e outros mais agressivos com cuidado. Já Mark Wahlberg faz o que pode com seu personagem, uma vez que o roteiro não pede muito de sua atuação. 

Porém, o destaque vai para Christian Bale. O ator transmite com perfeição mesmo as características mais sutis de seu personagem, desde os momentos de maior impulsividade, (como em um momento envolvendo uma TV) até os menores hábitos de um adicto de drogas, sem deixá-lo caricato. E, apesar das drogas, Bale consegue transformar Dicky em um irmão mais velho cuidadoso, chegando a parecer a pessoa certa a treinar Micky, por estar sempre seguro e disposto a ajudá-lo, mesmo que outros de seus atos apresentem o contrário.

Por outro lado, se Dicky nunca parece caricato, suas irmãs são o exato oposto. Destoando dos outros personagens do filme, elas aparecem como personagens vilanescas e unidimensionais, como capangas de sua mãe, que só servem para dar volume às cenas, roubar tempo do que realmente importa e fazer comentários que beiram ao ridículo. Mas os diálogos não são um problema apenas para a irmã do protagonista: todos os personagens precisam dizer o que estão sentindo e o que farão, por vezes soando artificial.

Como esperado em filmes esportivos, o diretor aposta em uma linguagem mais dinâmica para o longa, utilizando sempre a câmera na mão com movimentos rápidos, tanto em cenas de luta e de maior intensidade, quanto em diálogos simples, como em um entre Micky e Dicky, em que o cineasta prefere apenas movimentar a câmera entre ambos os personagens. Entretanto, tal recurso se torna um problema quando David O. Russell decide colocar músicas que descontextualizam as cenas, como em uma determinada cena de briga, cuja música tira parte da tensão necessária.

O Vencedor se beneficia da força dos personagens principais e das atuações para superar um roteiro previsível e com algumas falhas.

Nota: 8,5/10