segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O Príncipe das Marés/The Prince Of Tides (1991)


Há algum tempo, estou fazendo uma maratona dos filmes indicados/vencedores do Oscar. Alguns desses filmes são desconhecidos pelo público em geral, quase todas as vezes por ter um filme mais famoso no ano (As Horas em 2002, Boa Noite e Boa Sorte em 2005, Sideways em 2004...filmes tão bons quanto os renomados do ano, mas esquecidos). E esse foi o caso de O Príncipe das Marés, dirigido por Barbra Streisand. Em um ano onde os indicados eram ("apenas") O Silêncio dos Inocentes, e JFK, é comum não prestar tanta atenção nos outros indicados que nem se ouviram falar...mas não se imagina que reservam uma grata surpresa ao assistir.

Tom Wingo (Nick Nolte) é um treinador de futebol americano desempregado que vive na Carolina do Sul. Quando sua irmã, Savannah (Melinda Dillon) tenta cometer suicídio, ele vai a Nova York para apoiá-la, e lá se envolve com Susan Lowenstein (Barbra Streisand), a psiquiatra que cuida dela.

Ao ler esta sinopse, fiquei com um pé atrás antes de assistir ao filme; nunca fui muito fã de filmes românticos, e pior: a motivação para tal romance acontecer parecia um tanto quanto exagerada e egoísta, já que a sinopse faz parecer que Tom e Lowenstein ignoram o fato de Savannah ter tentado tirar a própria vida, e apenas vivem um amor no filme. Pelo contrário: durante boa parte da trama, esse tal relacionamento amoroso é praticamente ignorado. Em poucos momentos Lowenstein e Tom se encontram fora do consultório da psiquiatra, onde, na verdade, ela pergunta a Tom como fora sua vida e como a irmã era na infância.

Barbra Streisand conduz o filme da maneira certa, expressando sonora e visualmente todo o caos de Nova York, deixando Tom pressionado por carros e pelas pessoas, com o som irritante de várias buzinas ao mesmo tempo, refletindo também a irmã do Tom, uma personagem mais caótica que o irmão. Essa imagem se opõe à criada quando o protagonista está na Carolina do Sul, cidade que tanto ama por ser mais pacífica, onde se encontra rodeado por sua família, especialmente suas filhas.





Além disso, a diretora consegue expressar muito bem com um simples plano o distanciamento que Tom possui com sua esposa, Sally (Blythe Danner). Em outro momento, quando Lowenstein revela ter um marido, a figura dele em um pôster parece formar uma barreira entre os dois.




Vale ressaltar que isso só é possível pela excelente fotografia de Stephen Goldblatt, que capta estes e outros momentos de maneira belíssima, fazendo com que o filme seja uma experiência visual incrível.

Porém, o grande ponto forte do filme é o roteiro: mostrando a origem da família de Tom, podemos entender todos o que moldou a personalidade de cada um deles, sendo Tom um personagem extremamente sarcástico e tentando sempre contar piadas para "quebrar o gelo", e Savannah preferindo esquecer a cidade interiorana onde passou a infância, preferindo viver a fase adulta em uma cidade com a atmosfera contrária.

Dentre as atuações, o destaque é para Nick Nolte, que interpreta Tom Wingo como um personagem real, que convence mesmo no lado sarcástico quanto nos lados mais íntimos, quando conta algo de sua vida.

Porém, o filme peca quando ao chegar nos momentos finais. A partir do momento em que conhecemos o marido de Lowenstein, ele se apresenta como um "vilão" frágil, sendo um personagem tão arrogante que em nenhum momento parece uma ameaça para o convívio entre Tom e Susan. Por exemplo, em certo momento, ele convida o protagonista para um jantar em sua casa apenas para insultá-lo na frente de seus amigos e (pior) de sua esposa, agindo de maneira tão imbecil que fica claro desde o começo qual será a reação de Susan ao presenciar tal acontecimento. Além disso, também no final do filme, os dramas psicológicos que envolviam o passado de Savannah e Tom que eram o destaque da trama são abandonados, dando prioridade ao dito romance entre o protagonista e a psiquiatra, que enfraquecem consideravelmente o filme.

O filme foi indicado a 7 Oscars (Filme, Ator - Nick Nolte, Atriz coadjuvante - Kate Nelligan, Roteiro adaptado, Trilha Sonora, Fotografia e Direção de Arte). Mereceria vencer alguma dessas? Talvez Fotografia, mas os concorrentes no mesmo ano eram muito mais fortes. Apesar de começar melhor do que termina, O Príncipe das Marés é uma pérola injustamente esquecida e perdida durante o tempo que merece mais atenção do público.

Nota: 9,0/10

domingo, 23 de setembro de 2018

Erin Brockovich (2000)


Erin Brockovich pode ter uma certa "má fama" por ter levado um Oscar de Melhor Atriz considerado injusto, fazendo pessoas torcerem o nariz para a obra, mas certamente é um filme que merece mais atenção, principalmente pelos temas retratados.

Erin Brockovich (Julia Roberts) é mãe solteira de três filhos que trabalha em um pequeno escritório de advocacia. Quando descobre que a água de uma cidade no deserto está sendo contaminada e espalhando doenças para os habitantes, convence seu chefe a deixá-la investigar o assunto.

A grande força de Erin Brockovich consiste em sua personagem-título. Julia Roberts a interpreta de maneira real e sutil, nos fazendo empatizar com a personagem em poucos minutos de filme. Desde os belos sorrisos de Erin até os momentos em que briga com certos personagens, não deixamos de nos importar com a personagem, e a interpretação de Roberts é essencial para tornar a personagem crível, dando a ela seu primeiro (e até então, único) Oscar de Melhor Atriz.

Destaque também para o chefe de Brockovich, Ed Masry, interpretado magistralmente por Albert Finney, compondo o personagem também com carisma, que parece sempre estar assustado, hesita em responder a Erin, como se na verdade ela fosse o chefe dele, sem deixar de demonstrar respeito a ela, já que é uma peça importantíssima no caso tratado.

Apesar de ser considerado um drama, o diretor Steven Soderbergh adota uma abordagem cômica em alguns momentos, algo que Soderbergh trabalha muito bem, deixando a obra consistente tanto em momentos cômicos quanto em cenas mais dramáticas. O tom de cores mais quentes retratados tanto pela fotografia quanto pela direção de arte contribui ainda mais para essa abordagem, também retratando a personagem de Erin: simpática e bela, mas também forte e independente. Steven Soderbergh foi indicado ao Oscar de Melhor Direção por esse trabalho, curiosamente, perdendo para ele mesmo por Traffic, também de 2000.

O roteiro também é um ponto forte do filme, pois trata de temas relevantes e pesados como Feminismo e Aparência x Essência sem ficar sermônico demais, o que facilita o acesso de um público que não está tão interessado assim nessas questões. Porém, há alguns pequenos deslizes. O primeiro diz respeito a certos diálogos que não soam tão naturais, às vezes expositivos. Por exemplo, em um certo momento, Erin briga com seu novo vizinho, George (Aaron Eckhart), por fazer muito barulho com sua moto e atrapalhar o sono de seus filhos. Ele, por sua vez, pede desculpas a Brockovich e pede seu número de telefone para lhe telefonar (óbvio). Ela, ainda com raiva, responde com os "números de sua vida" (três filhos, suas idades, quantas vezes foi casada, etc.), e, por mais que essa resposta possa demonstra a força da personagem principal, não é natural, ninguém responderia a algo dessa maneira. Em outro momento, Erin briga com seu chefe, mas essa briga acaba em risadas pelas duas partes, e, ironicamente, Ed solta "Às vezes eu te odeio"; Brockovich, rindo, responde "Não, você me ama.", algo que fica claro, dado o momento em que ambos acabaram a discussão.  Outro problema do filme é sua trama (um pouco clichê) envolvendo a grande empresa malvada que pode destruir o mundo, causar a morte de milhares de pessoas, ou mesmo ir contra a lei. Sei que o filme foi baseado em fatos reais, portanto, isso não o atrapalha, mas essa questão foi abordada várias vezes antes de maneiras melhores, como em O Informante (1999), Síndrome da China (1979), JFK (1993), e o espetacular Todos os Homens do Presidente (1976).

Indicado a 5 Oscars (Filme, Direção, Atriz - Julia Roberts, Ator Coadjuvante - Albert Finney e Roteiro Original), Erin Brockovich é um filme subestimado, que trata de questões importantes e atuais da maneira certa. Apesar de ter alguns pequenos problemas, vale especialmente pelo carisma de seus personagens principais.

Nota: 8,5/10

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Festim Diabólico/Rope (1948)


Até onde o egoísmo é saudável? É comum dizer que ele não é saudável, mas todos nós temos nossos orgulhos, por menores que sejam. Por mais irritante que a arrogância às vezes seja, (quase) ninguém é capaz de fazer qualquer coisa apenas para satisfazer seu ego, mas Festim Diabólico aborda justamente isso: o quanto a arrogância em excesso pode ser prejudicial não só para a pessoa em si, mas para os outros a seu redor...e o pior de tudo é que o filme foi baseado em fatos reais.

Em Nova York, Brandon (John Dall) e Philip (Farley Granger) assassinam seu amigo David, por se considerarem intelectualmente superiores a ele. Com toda frieza e arrogância, resolvem provar para eles mesmos sua habilidade e esperteza: esconderão o corpo em um grande baú, que servirá como mesa e estará exposto no meio da sala do apartamento deles, durante uma festa que será realizada logo em seguida.

No começo do filme, a trama de Festim Diabólico pareceu fraca demais, apenas uma motivação qualquer para fazer um filme de suspense. Porém, aos poucos, isso deixa de ser somente um ponto de início da trama e passa a ser um elemento para desenvolvimento dos personagens principais, especialmente de Brandon, já que Philip logo após o assassinato se demonstra inseguro por cometer tal crime, ficando gradativamente mais nervoso e com medo por tanta pressão dentro do apartamento, enquanto Brandon demonstra a frieza e a calma de um psicopata.

Dirigido por Alfred Hitchcock, o filme tem seu ponto forte justamente no que o diretor é famoso por fazer com maestria inigualável: o suspense. Durante seus rápidos 80 minutos, Hitchcock consegue deixar o espectador tenso com todos os elementos possíveis, desde algum personagem passando ao lado do baú que esconde o cadáver até com simples diálogos que exploram o fato de seres "insignificantes" merecerem morrer.

O filme é até hoje celebrado por ser praticamente inteiro filmado "sem cortes". Na verdade, alguns cortes são visíveis, mas na maioria das vezes, Hitchcock esconde tais cortes passando a câmera pelas costas de algum personagem de terno, deixando a tela totalmente preta e voltando poucos segundos à frente. Isso não tira de modo algum o mérito do diretor em coordenar com perfeição o movimento da câmera e dos atores, uma vez que fazer um filme de 80 minutos sem cortes naquela época era impossível: os rolos das câmeras acabavam após pouco mais de 10 minutos, e teriam que ser trocados. Algumas críticas da época disseram que as tomadas longas pareciam apenas uma tentativa de Hitchcock chamar atenção para si mesmo (irônico), mas isso funciona, já que faz a festa parecer extremamente demorada e, por isso, aumenta ainda mais a tensão, pois os convidados parecem nunca irem embora da cena do crime.

Porém, Festim Diabólico tem apenas uma pequena falha, e diz respeito à construção dos personagens. Em diversos momentos, Philip fica visivelmente assustado e cada vez mais agressivo, bebendo excessivamente e ficando instável. Mas isso é plausível, o problema vem quando Brandon o incentiva a responder perguntas comprometedoras e deixa Philip tomar as rédeas da situação enquanto ele apenas assiste. Ora, não faria mais sentido ter a situação sob controle em vez de deixar o amigo totalmente despreparado cuidar disso?

No final das contas, Festim Diabólico pode ter uma história inicialmente fraca e uma pequena falha de personagem, mas o suspense criado por Hitchcock esconde esses deslizes dentro de um baú e os torna quase irrelevantes.

Nota: 9,0/10

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Quem Bate À Minha Porta/I Call First (1967)



"Um filme de Martin Scorsese". Pode ser difícil imaginar, mas, um dia, o nome do diretor dos clássicos Os Bons Companheiros, Touro Indomável e Taxi Driver não dizia nada, ou sequer estava no pôster (como na imagem acima). Diretores renomados atualmente começaram de algum lugar, e não tinham tanta fama assim...e no caso de Scorsese, infelizmente, não começou com um grande trabalho.

J.R. (Harvey Keitel) é um desempregado feliz da vida que passa seus dias saindo com seus amigos, em Nova York. Porém, quando ele reencontra uma amiga da faculdade, apaixona-se por ela e passa a questionar todos a sua volta e a própria vida.

Pelo menos é isso que a sinopse diz, já que a trama parece não ter tanto conflito assim. J.R. se encontra com os seus amigos e com sua namorada durante o filme inteiro, e nada atrapalha as duas coisas. Em alguns momentos ele questiona seus amigos e até mesmo sua namorada, porém, tudo isso se resolve em poucos minutos ou segundos. Por mais que J.R. brigue com seus amigos, na próxima cena vemos eles brincando novamente, fazendo com que pareça que nada realmente importa. E há ainda uma cena envolvendo uma estátua que parece ter grande relevância no decorrer da história, mas aos poucos ela é esquecida e não se justifica.

Além disso, a montagem também atrapalha o filme, não deixando muito claro o que seriam flashbacks e o que estaria acontecendo naquele momento. Ainda na montagem, algumas cenas são desnecessariamente longas, tomando até quatro minutos de projeção sem dizer muita coisa. Ainda  que relativamente curto (tem pouco menos que 1h30m), não faz sentido ter cenas tão longas que não agregam muito ao filme.

Porém, Quem Bate À Minha Porta tem seus acertos. Logo nos primeiros minutos, já vemos algumas características de Scorsese que viriam a ser repetidas em seus próximos trabalhos, como usar trilha sonora adaptada (principalmente de rock). Talvez a música que mais chama atenção é The End, do The Doors (aquela que toca no início de Apocalypse Now), já que é de uma banda famosa atualmente, mas que lançou seu primeiro álbum também em 1967, ano de estréia do filme. Ainda nos primeiros minutos, algumas cenas de briga lembram um pouco às protagonizadas por Tommy em Os Bons Companheiros.

Além disso, os diálogos são um prato cheio para os cinéfilos (que imagino que sejam os únicos que irão assistir a esse filme, devido a sua baixa popularidade). Em diversos momentos, J.R. e sua namorada conversam sobre clássicos do cinema, principalmente faroestes, como Rastros de Ódio e O Homem Que Matou o Facínora, fazendo também várias referências a John Wayne em específico.

Apesar disso, é perceptível o amadorismo do cineasta no começo da carreira (óbvio, já que ele tinha apenas 25 anos em 1967, não dá pra cobrar uma obra tecnicamente perfeita). Em algumas cenas, a câmera tem que se ajustar para não "cortar a cabeça" de certo personagem, enquanto em outra cena, o rosto de um ator é tampado por uma cadeira que está em sua frente, o que não parece proposital, uma vez que no próximo plano o rosto do ator é visível.


Quem Bate À Minha Porta não é um filme terrível, tem suas cenas divertidas e diálogos interessantes, mas a falta de conflito e a montagem confusa prejudicam consideravelmente a obra. Vale mais como estudo para entender como um dos maiores cineastas de todos os tempos começou, e, principalmente, como sua carreira foi crescente.

Nota: 5,5/10

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Apresentação

Oi, tudo bem? Meu nome é Harrison Duarte, tenho atualmente 18 anos, sou canceriano (irrelevante pra mim), e faço esse blog pra tentar apreciar ainda mais o cinema e passar o meu entendimento dos filmes pra vocês.

"Tá, mas por que esse nome"? Explico: no momento em que escrevo isso, estou fazendo um curso de Cinema no CAV - Centro Audiovisual de São Bernardo do Campo (pra também já ter uma noção de onde eu venho), e quero escrever sobre os filmes que assisto à medida que também vou aprendendo como eles são feitos e o quê olhar neles. Por isso, não ouso a chamar o que escrevo aqui de "críticas", pois acho que não tenho autoridade para isso; prefiro chamar de...na verdade, não sei ao certo sobre como chamar, não vou chamar de nada, talvez seja apenas uma opinião minha sobre o filme em questão...enfim, não importa.

Como o subtítulo diz, esse blog é mais como um "Diário de um aprendiz da Sétima Arte", mas não pretendo escrever qualquer coisa como: "gostei", "achei legal", "curti"...quero escrever de um modo que exercite meu senso crítico, pois uma área de meu interesse é o Jornalismo (Todos os Homens do Presidente e Spotlight podem ter decidido a faculdade que vou cursar), e espero ter o melhor texto possível, por mais que não os considere como críticas. Quero dizer onde o filme acerta ou erra na minha opinião.

Inclusive, acho que "na minha opinião" é uma frase que você deve imaginar sempre que ler algum texto daqui, já que a arte é subjetiva, e eu obviamente não vou ter a mesma visão que você, portanto, do mesmo jeito que você ama algum filme, eu posso odiá-lo, e vice-versa. E o melhor de tudo é que nós podemos amar ou odiar esse ou aquele filme na mesma intensidade, e continuamos sendo amigos. Esse é o grande diferencial da arte: ela não é a mesma pra ninguém, e isso gera debate, o que é sempre interessante (desde que feito de maneira sadia).

Vale ressaltar aqui também que, por causa desses motivos que citei acima, eu não tenho a mesma visão que a crítica ou o público tem. Alguns filmes ovacionados e/ou tidos como clássicos (como 8½, Gladiador e A Forma da Água) simplesmente não funcionaram comigo, do mesmo jeito que eu adoro alguns filmes considerados ruins (como X-Men 3), e vida que segue.

Enfim, é isso, sejam bem vindos(as) ao blog e vou deixar aqui algumas informações a mais de gostos meus (só por curiosidade):

Filme(s) preferido(s): Manchester By The Sea, O Poderoso Chefão, Todos os Homens do Presidente e Cassino
Série favorita: The Sopranos...não consigo assistir nenhuma série depois dessa
Diretor preferido: Martin fucking Scorsese
Banda/grupo musical preferida(o): Simon & Garfunkel
Podcast preferido: Não Ouvo (saudades Luide, Igor e Braian...)

Acho que só, vou deixar também meu perfil no Filmow e no IMDb para verem mais minhas notas de filmes e séries que assisti.

Filmow: https://filmow.com/usuario/harrisonduarte/

IMDb: https://www.imdb.com/user/ur69477215/?ref_=nb_usr_prof_0

Fogo Contra Fogo/Heat (1995)



Al Pacino e Robert De Niro são dois dos maiores atores do cinema, isso é inegável. E quem assiste a clássicos como Scarface, Touro Indomável e a trilogia O Poderoso Chefão entende o porquê dessa fama. Ambos tiveram carreiras parecidas: apesar de obviamente interpretarem papeis diferentes, são reconhecidos por filmes sobre crimes ou sobre a máfia (além dos já citados acima, Os Bons Companheiros, Um Dia de Cão e Caminhos Perigosos são alguns dos exemplos). Logo, era de se esperar que um crossover entre essas duas lendas acontecesse...e Michael Mann foi o diretor responsável por tornar isso real.
      
Em Los Angeles, Neil McCauley (De Niro) e sua gangue assaltam um carro-forte e roubam US$1,6 milhão de dólares em títulos ao comprador. Durante o assalto, sua gangue mata três policiais, o que faz o Vincent Hanna (Pacino), detetive da Divisão de Roubo e Homicídio, assumir o caso.
     
É curioso notar como uma trama tão simples pode gerar um filme tão diferente dos demais e, por isso, tão interessante. O diferencial de Fogo Contra Fogo na verdade está no desenvolvimento de seus personagens principais, a construção de seus arcos e como eles lidam com os acontecimentos do decorrer do filme, e como suas personalidades são contrastantes. Vincent, por exemplo, cuja profissão consiste em "manter a ordem" na cidade, não consegue cuidar nem de sua própria família, já que tem problemas com sua esposa, enquanto Neil, criminoso, tem um relacionamento saudável durante o filme, mesmo dizendo ser capaz de abandonar tudo em 30 segundos sem hesitar, caso necessário. Esse constrate também é ressaltado pela atuação de De Niro e Pacino. O primeiro constrói seu personagem como uma pessoa calma, com um tom de voz mais baixo, na medida que Al Pacino tem um personagem mais explosivo, gritando constantemente.

Para ressaltar essa natureza de seus personagens (seja no âmbito "profissional" ou no pessoal), Mann e Dante Spinotti, diretor de fotografia, optam por uma fotografia mais sombria, colaborados também pela direção de arte, que compõe os cenários de cores mais frias, sendo as únicas oposições quando Neil está com sua namorada, Eady (Amy Brenneman), e com seus amigos, onde a paleta de cores dá preferência a tons mais quentes.



O diretor também acerta ao conseguir criar a tensão necessária para que o filme funcione. E o roteiro é tão bem escrito que essa tensão é criada para os dois lados, parecendo mais como um jogo de xadrez, onde cada movimento pode mudar completamente a trama, e o fato dos personagens principais serem extremamente bem concebidos torna isso ainda mais palpável, já que não é possível torcer para apenas um deles, sempre pensando o que cada um vai fazer na próxima jogada.

Porém, Fogo Contra Fogo não é perfeito. Em alguns momentos, o filme se arrasta um pouco, tornando suas quase 3 horas de duração perceptíveis, algo que não acontece com alguns filmes maiores e com menos ação. Algo que também não contribui para isso é o fato de seu clímax acontecer uma hora antes do fim do filme, fazendo com que por mais que após isso a trama continue interessante, deixa a sensação de que o filme já estaria acabando, mas nunca acaba.

Outro ponto negativo do filme são alguns overactings (quando um ator "passa dos limites", gritando e gesticulando mais do que o necessário), principalmente de Al Pacino (vide imagem abaixo). Isso não compromete o filme, mas acaba gerando uma estranheza ao assistir.


(A título de curiosidade, se você pesquisar "Al Pacino overactings" 
e procurar imagens, os quatro primeiros resultados são de Fogo Contra Fogo)

Além disso, Robert De Niro e Al Pacino pouco se encontram durante o filme, estando em poucas cenas no mesmo plano, o que pode desapontar algumas pessoas, mas passa a ser previsível e aceitável, já que interpretam personagens adversários.

Fogo Contra Fogo possui alguns excessos, é arrastado em alguns momentos e pode desapontar um pouco pelo "épico encontro" acontecer por pouco tempo, mas vale por seus personagens e pela tensão.


Nota: 8,5/10