domingo, 23 de setembro de 2018

Erin Brockovich (2000)


Erin Brockovich pode ter uma certa "má fama" por ter levado um Oscar de Melhor Atriz considerado injusto, fazendo pessoas torcerem o nariz para a obra, mas certamente é um filme que merece mais atenção, principalmente pelos temas retratados.

Erin Brockovich (Julia Roberts) é mãe solteira de três filhos que trabalha em um pequeno escritório de advocacia. Quando descobre que a água de uma cidade no deserto está sendo contaminada e espalhando doenças para os habitantes, convence seu chefe a deixá-la investigar o assunto.

A grande força de Erin Brockovich consiste em sua personagem-título. Julia Roberts a interpreta de maneira real e sutil, nos fazendo empatizar com a personagem em poucos minutos de filme. Desde os belos sorrisos de Erin até os momentos em que briga com certos personagens, não deixamos de nos importar com a personagem, e a interpretação de Roberts é essencial para tornar a personagem crível, dando a ela seu primeiro (e até então, único) Oscar de Melhor Atriz.

Destaque também para o chefe de Brockovich, Ed Masry, interpretado magistralmente por Albert Finney, compondo o personagem também com carisma, que parece sempre estar assustado, hesita em responder a Erin, como se na verdade ela fosse o chefe dele, sem deixar de demonstrar respeito a ela, já que é uma peça importantíssima no caso tratado.

Apesar de ser considerado um drama, o diretor Steven Soderbergh adota uma abordagem cômica em alguns momentos, algo que Soderbergh trabalha muito bem, deixando a obra consistente tanto em momentos cômicos quanto em cenas mais dramáticas. O tom de cores mais quentes retratados tanto pela fotografia quanto pela direção de arte contribui ainda mais para essa abordagem, também retratando a personagem de Erin: simpática e bela, mas também forte e independente. Steven Soderbergh foi indicado ao Oscar de Melhor Direção por esse trabalho, curiosamente, perdendo para ele mesmo por Traffic, também de 2000.

O roteiro também é um ponto forte do filme, pois trata de temas relevantes e pesados como Feminismo e Aparência x Essência sem ficar sermônico demais, o que facilita o acesso de um público que não está tão interessado assim nessas questões. Porém, há alguns pequenos deslizes. O primeiro diz respeito a certos diálogos que não soam tão naturais, às vezes expositivos. Por exemplo, em um certo momento, Erin briga com seu novo vizinho, George (Aaron Eckhart), por fazer muito barulho com sua moto e atrapalhar o sono de seus filhos. Ele, por sua vez, pede desculpas a Brockovich e pede seu número de telefone para lhe telefonar (óbvio). Ela, ainda com raiva, responde com os "números de sua vida" (três filhos, suas idades, quantas vezes foi casada, etc.), e, por mais que essa resposta possa demonstra a força da personagem principal, não é natural, ninguém responderia a algo dessa maneira. Em outro momento, Erin briga com seu chefe, mas essa briga acaba em risadas pelas duas partes, e, ironicamente, Ed solta "Às vezes eu te odeio"; Brockovich, rindo, responde "Não, você me ama.", algo que fica claro, dado o momento em que ambos acabaram a discussão.  Outro problema do filme é sua trama (um pouco clichê) envolvendo a grande empresa malvada que pode destruir o mundo, causar a morte de milhares de pessoas, ou mesmo ir contra a lei. Sei que o filme foi baseado em fatos reais, portanto, isso não o atrapalha, mas essa questão foi abordada várias vezes antes de maneiras melhores, como em O Informante (1999), Síndrome da China (1979), JFK (1993), e o espetacular Todos os Homens do Presidente (1976).

Indicado a 5 Oscars (Filme, Direção, Atriz - Julia Roberts, Ator Coadjuvante - Albert Finney e Roteiro Original), Erin Brockovich é um filme subestimado, que trata de questões importantes e atuais da maneira certa. Apesar de ter alguns pequenos problemas, vale especialmente pelo carisma de seus personagens principais.

Nota: 8,5/10

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