Até onde o egoísmo é saudável? É comum dizer que ele não é saudável, mas todos nós temos nossos orgulhos, por menores que sejam. Por mais irritante que a arrogância às vezes seja, (quase) ninguém é capaz de fazer qualquer coisa apenas para satisfazer seu ego, mas Festim Diabólico aborda justamente isso: o quanto a arrogância em excesso pode ser prejudicial não só para a pessoa em si, mas para os outros a seu redor...e o pior de tudo é que o filme foi baseado em fatos reais.
Em Nova York, Brandon (John Dall) e Philip (Farley Granger) assassinam seu amigo David, por se considerarem intelectualmente superiores a ele. Com toda frieza e arrogância, resolvem provar para eles mesmos sua habilidade e esperteza: esconderão o corpo em um grande baú, que servirá como mesa e estará exposto no meio da sala do apartamento deles, durante uma festa que será realizada logo em seguida.
No começo do filme, a trama de Festim Diabólico pareceu fraca demais, apenas uma motivação qualquer para fazer um filme de suspense. Porém, aos poucos, isso deixa de ser somente um ponto de início da trama e passa a ser um elemento para desenvolvimento dos personagens principais, especialmente de Brandon, já que Philip logo após o assassinato se demonstra inseguro por cometer tal crime, ficando gradativamente mais nervoso e com medo por tanta pressão dentro do apartamento, enquanto Brandon demonstra a frieza e a calma de um psicopata.
Dirigido por Alfred Hitchcock, o filme tem seu ponto forte justamente no que o diretor é famoso por fazer com maestria inigualável: o suspense. Durante seus rápidos 80 minutos, Hitchcock consegue deixar o espectador tenso com todos os elementos possíveis, desde algum personagem passando ao lado do baú que esconde o cadáver até com simples diálogos que exploram o fato de seres "insignificantes" merecerem morrer.
O filme é até hoje celebrado por ser praticamente inteiro filmado "sem cortes". Na verdade, alguns cortes são visíveis, mas na maioria das vezes, Hitchcock esconde tais cortes passando a câmera pelas costas de algum personagem de terno, deixando a tela totalmente preta e voltando poucos segundos à frente. Isso não tira de modo algum o mérito do diretor em coordenar com perfeição o movimento da câmera e dos atores, uma vez que fazer um filme de 80 minutos sem cortes naquela época era impossível: os rolos das câmeras acabavam após pouco mais de 10 minutos, e teriam que ser trocados. Algumas críticas da época disseram que as tomadas longas pareciam apenas uma tentativa de Hitchcock chamar atenção para si mesmo (irônico), mas isso funciona, já que faz a festa parecer extremamente demorada e, por isso, aumenta ainda mais a tensão, pois os convidados parecem nunca irem embora da cena do crime.
Porém, Festim Diabólico tem apenas uma pequena falha, e diz respeito à construção dos personagens. Em diversos momentos, Philip fica visivelmente assustado e cada vez mais agressivo, bebendo excessivamente e ficando instável. Mas isso é plausível, o problema vem quando Brandon o incentiva a responder perguntas comprometedoras e deixa Philip tomar as rédeas da situação enquanto ele apenas assiste. Ora, não faria mais sentido ter a situação sob controle em vez de deixar o amigo totalmente despreparado cuidar disso?
No final das contas, Festim Diabólico pode ter uma história inicialmente fraca e uma pequena falha de personagem, mas o suspense criado por Hitchcock esconde esses deslizes dentro de um baú e os torna quase irrelevantes.
Nota: 9,0/10

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