Há algum tempo, estou fazendo uma maratona dos filmes indicados/vencedores do Oscar. Alguns desses filmes são desconhecidos pelo público em geral, quase todas as vezes por ter um filme mais famoso no ano (As Horas em 2002, Boa Noite e Boa Sorte em 2005, Sideways em 2004...filmes tão bons quanto os renomados do ano, mas esquecidos). E esse foi o caso de O Príncipe das Marés, dirigido por Barbra Streisand. Em um ano onde os indicados eram ("apenas") O Silêncio dos Inocentes, e JFK, é comum não prestar tanta atenção nos outros indicados que nem se ouviram falar...mas não se imagina que reservam uma grata surpresa ao assistir.
Tom Wingo (Nick Nolte) é um treinador de futebol americano desempregado que vive na Carolina do Sul. Quando sua irmã, Savannah (Melinda Dillon) tenta cometer suicídio, ele vai a Nova York para apoiá-la, e lá se envolve com Susan Lowenstein (Barbra Streisand), a psiquiatra que cuida dela.
Ao ler esta sinopse, fiquei com um pé atrás antes de assistir ao filme; nunca fui muito fã de filmes românticos, e pior: a motivação para tal romance acontecer parecia um tanto quanto exagerada e egoísta, já que a sinopse faz parecer que Tom e Lowenstein ignoram o fato de Savannah ter tentado tirar a própria vida, e apenas vivem um amor no filme. Pelo contrário: durante boa parte da trama, esse tal relacionamento amoroso é praticamente ignorado. Em poucos momentos Lowenstein e Tom se encontram fora do consultório da psiquiatra, onde, na verdade, ela pergunta a Tom como fora sua vida e como a irmã era na infância.
Barbra Streisand conduz o filme da maneira certa, expressando sonora e visualmente todo o caos de Nova York, deixando Tom pressionado por carros e pelas pessoas, com o som irritante de várias buzinas ao mesmo tempo, refletindo também a irmã do Tom, uma personagem mais caótica que o irmão. Essa imagem se opõe à criada quando o protagonista está na Carolina do Sul, cidade que tanto ama por ser mais pacífica, onde se encontra rodeado por sua família, especialmente suas filhas.
Além disso, a diretora consegue expressar muito bem com um simples plano o distanciamento que Tom possui com sua esposa, Sally (Blythe Danner). Em outro momento, quando Lowenstein revela ter um marido, a figura dele em um pôster parece formar uma barreira entre os dois.
Vale ressaltar que isso só é possível pela excelente fotografia de Stephen Goldblatt, que capta estes e outros momentos de maneira belíssima, fazendo com que o filme seja uma experiência visual incrível.
Porém, o grande ponto forte do filme é o roteiro: mostrando a origem da família de Tom, podemos entender todos o que moldou a personalidade de cada um deles, sendo Tom um personagem extremamente sarcástico e tentando sempre contar piadas para "quebrar o gelo", e Savannah preferindo esquecer a cidade interiorana onde passou a infância, preferindo viver a fase adulta em uma cidade com a atmosfera contrária.
Dentre as atuações, o destaque é para Nick Nolte, que interpreta Tom Wingo como um personagem real, que convence mesmo no lado sarcástico quanto nos lados mais íntimos, quando conta algo de sua vida.
Porém, o filme peca quando ao chegar nos momentos finais. A partir do momento em que conhecemos o marido de Lowenstein, ele se apresenta como um "vilão" frágil, sendo um personagem tão arrogante que em nenhum momento parece uma ameaça para o convívio entre Tom e Susan. Por exemplo, em certo momento, ele convida o protagonista para um jantar em sua casa apenas para insultá-lo na frente de seus amigos e (pior) de sua esposa, agindo de maneira tão imbecil que fica claro desde o começo qual será a reação de Susan ao presenciar tal acontecimento. Além disso, também no final do filme, os dramas psicológicos que envolviam o passado de Savannah e Tom que eram o destaque da trama são abandonados, dando prioridade ao dito romance entre o protagonista e a psiquiatra, que enfraquecem consideravelmente o filme.
O filme foi indicado a 7 Oscars (Filme, Ator - Nick Nolte, Atriz coadjuvante - Kate Nelligan, Roteiro adaptado, Trilha Sonora, Fotografia e Direção de Arte). Mereceria vencer alguma dessas? Talvez Fotografia, mas os concorrentes no mesmo ano eram muito mais fortes. Apesar de começar melhor do que termina, O Príncipe das Marés é uma pérola injustamente esquecida e perdida durante o tempo que merece mais atenção do público.
Nota: 9,0/10





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