terça-feira, 9 de julho de 2019

O Vencedor/The Fighter (2010)



Os filmes de esporte, principalmente de boxe, seguem uma fórmula quase única. Tendo o clássico Rocky - Um Lutador como principal fonte de inspiração, é comum ver a mesma história nesse gênero, com diferenças leves de estrutura ou personagens. Além disso, O Vencedor conta com o diretor dos medíocres O Lado Bom da Vida e Trapaça, mais um fator a me desestimular a assisti-lo. Mesmo com todos esses pontos, é curioso como o filme é capaz de empolgar e fazer o espectador torcer por seus personagens.

Baseado em história real, o filme conta a trajetória do boxeador Micky Ward (Mark Wahlberg) até o título mundial dos pesos-leves. Ele conta com seu irmão, Dicky Eklund (Christian Bale), um ex-lutador que se transforma em treinador e quase perde a vida para as drogas e o crime.
O diferencial do filme não está na história, mas em como ela é contada e em seus personagens. A começar por Micky Ward: o caçula da família, Micky é tratado como indefeso pela família, tendo sua carreira controlada por seu irmão mais velho, que o treina, e sua mãe, Alice (Melissa Leo), a empresária. Já a namorada, Charlene (Amy Adams), toma a frente do namorado contra sua família, falando e tomando decisões por ele, chegando a dizer "Micky é adulto, pode pensar por si mesmo".

E tais personagens só funcionam pelas atuações. Enquanto Amy Adams interpreta Charlene como uma namorada mais dura e preocupada com a carreira de Micky, Melissa Leo, apenas 11 anos mais velha que Wahlberg, aparece irreconhecível como a mãe decadente de Micky, transitando entre momentos aparentemente afetuosos e outros mais agressivos com cuidado. Já Mark Wahlberg faz o que pode com seu personagem, uma vez que o roteiro não pede muito de sua atuação. 

Porém, o destaque vai para Christian Bale. O ator transmite com perfeição mesmo as características mais sutis de seu personagem, desde os momentos de maior impulsividade, (como em um momento envolvendo uma TV) até os menores hábitos de um adicto de drogas, sem deixá-lo caricato. E, apesar das drogas, Bale consegue transformar Dicky em um irmão mais velho cuidadoso, chegando a parecer a pessoa certa a treinar Micky, por estar sempre seguro e disposto a ajudá-lo, mesmo que outros de seus atos apresentem o contrário.

Por outro lado, se Dicky nunca parece caricato, suas irmãs são o exato oposto. Destoando dos outros personagens do filme, elas aparecem como personagens vilanescas e unidimensionais, como capangas de sua mãe, que só servem para dar volume às cenas, roubar tempo do que realmente importa e fazer comentários que beiram ao ridículo. Mas os diálogos não são um problema apenas para a irmã do protagonista: todos os personagens precisam dizer o que estão sentindo e o que farão, por vezes soando artificial.

Como esperado em filmes esportivos, o diretor aposta em uma linguagem mais dinâmica para o longa, utilizando sempre a câmera na mão com movimentos rápidos, tanto em cenas de luta e de maior intensidade, quanto em diálogos simples, como em um entre Micky e Dicky, em que o cineasta prefere apenas movimentar a câmera entre ambos os personagens. Entretanto, tal recurso se torna um problema quando David O. Russell decide colocar músicas que descontextualizam as cenas, como em uma determinada cena de briga, cuja música tira parte da tensão necessária.

O Vencedor se beneficia da força dos personagens principais e das atuações para superar um roteiro previsível e com algumas falhas.

Nota: 8,5/10

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Nasce Uma Estrela/A Star Is Born (2018)


Nunca fui fã de filmes de romance. O excesso de cenas "bonitinhas" atrapalham a me identificar com o gênero, o que também me distancia dos musicais, onde a trama pausa para os atores cantarem e dançarem alguma música que todos já sabem. Porém, por não saber exatamente qual seria a história do filme (pois não assisti às versões anteriores, de 1937, 1954 e 1976), imaginei que estaria empolgado para um filme musical (engano meu) sobre um romance (bingo!) com uma cantora se arriscando como atriz...e tive uma grata surpresa ao descobrir que nos dois aspectos onde acertei, o filme se sai muito bem.

O músico Jackson Maine (Bradley Cooper) descobre a jovem Ally (Lady Gaga), por quem se apaixona. Jack a ajuda a realizar seu sonho de se tornar cantora.

A direção de Bradley Cooper, estreante na função, é sólida e passa visualmente a emoção dos personagens, como, por exemplo, na primeira cena, quando, no show de Jack, a câmera se movimenta com instabilidade, dando close-ups em lugares irrelevantes, como as costas de algum personagem, colocando o público junto da embriaguez de Maine. Além disso, o cineasta demonstra através da iluminação os momentos em que o casal está tendo atrito no relacionamento, utilizando as luzes vermelhas e azuis em cada personagem, demonstrando seu distanciamento. Outro ponto em que o diretor acerta em cheio é ao saber exatamente o quanto segurar uma cena que é relevante, o que cria tensão pela incerteza do que irá acontecer a seguir e, quando a resposta vem, ela tem muito mais impacto, seja para o alívio ou para a angústia do espectador.

O romance de Maine e Ally funciona muito bem, principalmente pelas várias facetas de seus personagens. Apesar  da personagem de Gaga amar Jackson, é perceptível o constrangimento pelo namorado em alguns momentos; por outro lado, Maine ama Ally, mas nutre certa inveja de seu sucesso, além de se afundar nas drogas e na bebida pela frustração de sua carreira ter desandado, o que o faz ter alguns comportamentos agressivos com a moça, algo que a moça rebate, mas entende a situação que Jack se encontra. E é surpreendente o quanto Lady Gaga consegue demonstrar as camadas de sua personagem com pouca experiência como atriz, ficando lado a lado com Bradley Cooper, que já é um ator experiente, indicado três vezes ao Oscar de Melhor Ator, e caminha para mais uma indicação. A interpretação de ambos é sutil, mas passa com clareza o que cada personagem sente.

As músicas originais decaem de qualidade ao decorrer do filme. Enquanto no início as excelentes "Maybe It's Time" (que lembra bastante às músicas de Simon & Garfunkel) e, principalmente "Shallow", são capazes de arrepiar o espectador mesmo sem conhecer muito da estória e dos personagens, à medida em que o filme progride, as músicas se tornam pop's fracos e clichês, sem utilizar o vasto potencial apresentado por Gaga nas primeiras canções.

Porém, no segundo ato o filme perde o ritmo, os conflitos são tão sutis que parecem agregar pouco à história, a tensão passa a estar presente principalmente em alguns momentos únicos, separados, sem algo que deixe a trama interessante.

Ainda é cedo para dizer, mas não será nenhuma surpresa se Nasce Uma Estrela estiver indicado às categorias de Melhor Filme, Direção, Ator - Bradley Cooper, Atriz - Lady Gaga e Melhor Canção Original - Shallow.

Nasce Uma Estrela começa e termina melhor do que se desenvolve, é irregular narrativa e musicalmente, mas a força das atuações, os personagens multidimensionais e as músicas iniciais e finais são capazes de arrepiar e emocionar qualquer espectador.

Nota: 8,5/10

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Seabiscuit (2003)


Historias de animais fofinhos, duras vidas e como seus dilemas são superados: Seabiscuit não poderia ser um filme com mais intenção de fazer o público chorar a qualquer custo; mas talvez esse seja o menor de seus problemas.

Charles Howard (Jeff Bridges) é um milionário que ganhou Seabiscuit, um cavalo de pequeno porte e indisciplinado que nunca teve grande destaque nas corridas. Howard decide o treinar para torná-lo competitivo, contratando o jóquei John "Red" Pollard e o treinador Tom Smith, conhecido no meio por sua capacidade de se comunicar com cavalos.

O grande problema do longa é praticamente não andar, muito menos galopar (entenderam o trocadilho? Ha ha ha...). Nada contribui para que o filme seja interessante de se assistir. O primeiro aspecto disso é sua trama previsível e desinteressante: a partir das primeiras cenas, você sabe exatamente o que vai acontecer; e quando algo inesperado acontece, é possível perceber o que acontecerá logo após aquilo - e, aliás, algo que já é raro de acontecer no filme só piora em alguns momentos, como em uma determinada cena onde um personagem "pressente" o que está acontecendo com Seabiscuit através de um problema de saúde; a cena é ilógica e exagerada, fazendo com que algo que deveria ser impactante soe apenas decepcionante.

Além disso, todos os personagens têm passados, mas nada os influencia a fazer algo, ou os atrapalha psicológica ou emocionalmente. Seja um personagem que perdeu parentes importantes, ou que estão cegos, isso quase nunca interfere no roteiro, tornando os personagens profundos, mas ainda assim rasos; conhecemos seus passados, mas se isso não os atrapalha, se torna apenas irrelevante.

Outra coisa que atrapalha o filme são alguns momentos onde há uma pausa na trama para narrar o contexto histórico do momento, prejudicando totalmente o ritmo do longa. Após uma corrida de cavalos muito bem montada (os únicos momentos onde o filme não dá sono, por sinal), o momento de explosão de adrenalina tem uma freada brusca para explicar o momento em que o país estava, que, aliás, não faz tanta diferença no roteiro, como, na verdade, nada faz.

Porém, Seabiscuit não deixa de ser um filme extremamente belo de se assistir. As cores vivas da direção de arte, ressaltadas pela composição e iluminação da cinematografia fazem desse longa visualmente agradável, apesar da ausência de um bom roteiro. Cada frame/enquadramento caberia perfeitamente como um papel de parede, como se fosse uma boa experiência para se ver sem som (ou, no caso, sem legendas).

Mas o filme erra feio ao ter uma direção pesada. Gary Ross tenta chamar excessivamente a atenção para si mesmo, utilizando jump cuts e match cuts excessivos, que causam estranheza ao assistir. No caso do primeiro, um personagem volta na posição inicial da cena apenas para dizer que algum tempo se passou e ele retornou lá (-Mas isso já não aconteceu?); no segundo, na verdade, um personagem completa a sua frase em outra cena, como: "[Cena 1] - Esse homem é...[Cena 2] irrelevante". Além de causar certa estranheza, como dito, esses cortes excessivos tiram a naturalidade do filme, saímos da diegese, nos lembramos que não estamos vivenciando a história, mas assistindo a um longa.

Seabiscuit tem seus longos 140 minutos são ainda piorados por uma história desinteressante, previsível e emocional demais. É inofensivo, apenas esquecível; agradável visualmente, pode ser interessante de se assistir enquanto faz alguma coisa a mais (caberia muito bem em um filme de Sessão da Tarde) e, por mais que as corridas de cavalo sejam dinâmicas, as quebras de ritmo provocadas pela explicação do contexto histórico prejudicam todo o andamento do longa.

O filme teve 7 inexplicáveis indicações ao Oscar (Filme, Roteiro Adaptado, Mixagem de Som, Direção de Arte, Edição, Figurino e Cinematografia), e perdeu quase todas para O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei.

Nota: 4,0/10

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O Homem Elefante/The Elephant Man (1980)



É comum ter certas frustrações com algo que não saiu como o esperado, ou ter a impressão de que, a cada dia, a vida fica mais curta e os sonhos ficam mais difíceis de serem alcançados, algo que é alvo de piadas de extremo mal gosto atualmente, e digo isso sendo um grande apreciador do humor negro; romantizar uma doença séria como a Depressão, que afeta milhares de pessoas ao redor do mundo e que é imperceptível por muitas vezes acarreta a famosa história do "menino que gritava 'lobo'". Algo que começa como uma piada pode se tornar sério após algum tempo, e isso só é descoberto quando uma tragédia aconteceu. Porém, algumas pessoas com mais dificuldades que nós são, admiravelmente, mais otimistas e por vezes até mais felizes que as pessoas que, às vezes, parecem ter tudo nas mãos e ainda assim são infelizes (e, com isso, não estou julgando a felicidade ou a tristeza de cada um, você entende os seus problemas e eu não tenho a menor autoridade de falar sobre eles).

O Homem Elefante foi baseado em fatos, e narra a história de Frederick Treves (Anthony Hopkins), um cirurgião inglês que resgata John Merrick (John Hurt), um homem com uma severa desfiguração corporal que fazia parte de um "show de horrores" de um circo, onde era conhecido como ""O Homem Elefante".

Um ponto importante de O Homem Elefante (rimou) é que seus personagens não têm suas definições claras, como puros heróis ou vilões. O dono do circo utilizava a imagem "assustadora" de Merrick para ganhar dinheiro, é verdade; mas se o circo não existisse, como seria a vida do homem desfigurado? Ele provavelmente não teria emprego, não teria o que comer, viveria escondido, talvez até fosse espancado na rua diversas vezes. Por mais horrível que seja a forma de vida de ambos, talvez seria pior se não fosse assim. Por outro lado, Treves parece usar a desfiguração de John para se provar um bom doutor, por vezes mostrando como é incrível sua deformidade; ou seja, ambos exploram as peculiaridades do homem para ganhar dinheiro, cada um de sua forma. Uma pena que o roteiro prefira deixar claro em alguns momentos as questões impostas pelo filme com diálogos expositivos e óbvios. E é um irônico como o cineasta conhecido por fazer filmes confusos tenha permitido explicações de algo ainda mais claro

Dirigido por David Lynch, o longa é denso e pessimista, e a fotografia em preto e branco ajuda a reforçar esse sentimento, como se a vida do personagem-título fosse desbotada, diferente de todas as outras. Além disso, o filme é silencioso, a quase ausência de trilha sonora deixa a atmosfera ainda mais solitária e intimista. O andamento da trama é lento, o que pode atrapalhar um pouco a conexão com o filme, pois não há grandes acontecimentos até o terceiro ato, mas isto dá espaço para o desenvolvimento da relação de seus personagens principais e seus dilemas pessoais. Ainda assim, não é uma história para assistir e se divertir, tampouco terminá-la feliz. Recomendo não o assistir em uma tarde ensolarada.

* Off-topic: este foi o primeiro filme de David Lynch que tive o prazer de assistir, pretendo me aprofundar na extensa obra desse diretor tão renomado atualmente *

Interpretando John Merrick, John Hurt teve um difícil trabalho em dar vida a seu personagem, principalmente com uma pesada maquiagem por cima, tendo como recursos apenas seus olhos e sua voz para tornar o homem real, os utilizando com maestria, compondo um personagem inocente e por muitas vezes assustado, agindo por vezes de maneira infantil, mas também com grande admiração por Frederick Treves, que considera seu amigo e uma pessoa "muito amável". Ao seu lado, Anthony Hopkins constrói o cirurgião como um homem inicialmente apático, colocando o trabalho e a curiosidade pelo Homem Elefante acima de tudo. Porém, a amizade e o respeito pela evolução do amigo toma conta do médico, o tratando de igual para igual, e não como um pobre coitado. [Até o final desse parágrafo, há um spoiler de diálogo que pode impactar no filme]. Um bom exemplo disso é quando Merrick pergunta ao cirurgião se sua doença tem cura. Treves não hesita em responder negativamente, apesar de demonstrar certa pena do homem.

Porém, o filme peca ainda no roteiro. Além de seus diálogos que expõem as temáticas e questionamentos da trama, a quantidade de Deus Ex Machina (quando a situação se resolve por uma coincidência, ou porque o roteiro decidiu que aquilo deveria ser resolvido de alguma forma) pesa um pouco em sua naturalidade. Os obstáculos são resolvidos de um segundo para o outro, com um personagem aparecendo na hora certa para salvar o que acontece.

O Homem Elefante impõe questões importantes, ainda mais se o tomarmos como uma metáfora para o racismo e a homofobia. Não é tão agradável de assistir (como não poderia ser, mesmo), possui alguns diálogos que explicam as questões que o espectador já entende e alguns obstáculos resolvidos de maneira muito fácil podem diminuir ainda mais a intensidade da história, mas as relações de seus personagens, os dilemas impostos e suas multidimensionalidades são ainda mais relevantes.

O filme foi indicado a 8 Oscars (Filme, Diretor, Ator - John Hurt, Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de Arte, Trilha Sonora e Montagem), mas não venceu nenhum. Infelizmente, John Hurt teve o azar de concorrer no mesmo ano em que Robert De Niro fez uma das melhores atuações do cinema, interpretando Jake La Motta, do filme Touro Indomável, fazendo a derrota do primeiro ser compreensível.

Nota: 8,5/10

sábado, 6 de outubro de 2018

Ray (2004)



Filmes biográficos de celebridades nunca me chamaram muita atenção, por algumas vezes deixar a impressão de que o único motivo de tais filmes terem sido feitos com a única intenção de fazer o público chorar e ter uma mensagem motivacional (ainda mais se tal personagem possuir alguma deficiência). O problema é que, assim, os filmes parecem explorar seus personagens de maneira maniqueísta, tratando-os como seres impecáveis ou como "coitadinhos". Mas, felizmente, Ray adota a abordagem contrária, mostrando justamente os defeitos de personalidade do mestre da música soul americana, Ray Charles, como seu vício em drogas e as diversas traições que cometeu enquanto estava na estrada.

(Devaneio: spoilers de filmes biográficos são spoilers? Hmm...)

E o fato de seus defeitos serem demonstrados durante todo o filme dá um toque especial a Ray, pois dá tridimensionalidade ao "personagem", o transformando em uma pessoa real (e o quão irônico é perceber que, muitas vezes os filmes baseados em histórias reais têm personagens mais falsos que os longas totalmente fictícios). Seria muito fácil mostrar o quanto foi difícil para Ray Charles tocar piano por ser cego, como sua vida fora difícil e como sua deficiência o transforma em um ser intocável e digno de inspiração. Vemos todos os problemas de Ray, seus desvios de caráter, que ele foi uma pessoa que errou, e isso, na verdade, deixa a pessoa ainda mais admirável, já que conseguiu superar todas as adversidades (ou quase todas).

Mas Ray tem seus primeiros problemas quando começam os flashbacks. Inseridos quase sempre a qualquer momento no filme, as cenas que se passam na infância de Ray Charles não soam naturais; o filme pára em um determinado momento para mostrar o passado de Ray que não há nenhuma ligação com a cena anterior para também voltar em algo que não há qualquer conexão com o que o flashback acabou de mostrar, tirando a fluidez do filme. 

O filme também tem sua parcela de sentimentalismo, e essa parcela diz respeito às memórias de Ray, e isso é demonstrado especialmente pela cinematografia e direção de arte, que passam dos tons mais escuros e desbotados dos tempos "atuais" para os verdes saturados da juventude do personagem. Na verdade, inicialmente achei que isso estaria ligado ao fato de, na infância, Ray ainda enxergar, por isso as cores estariam mais vivas, porém, (spoiler) após o garoto perder a visão, a cinematografia continua a mesma, jogando toda a minha teoria no lixo. Mas esses dois fatores apenas contribuem para a tentativa de forçar o choro do público, mostrando também através do roteiro a "dura infância" do garoto e como isso afeta também a sua vida adulta, já que o personagem constantemente sofre de alucinações em momentos aleatórios, e servem para pouca coisa. Mas apesar das quebras de ritmo (que pesam ainda mais as longas 2h30m do filme), os flashbacks não são um desperdício total, por nos apresentar uma das melhores personagens do filme, Aretha Robinson, a mãe de Ray. Os conflitos da personagem (que prefiro não me aprofundar para poupar mais possíveis spoilers) são a chave para não fazer toda a falta de fluidez acontecer em vão.

O filme derrapa ainda mais nas cenas finais, quando Ray tem algumas alucinações e reencontra sua família na casa onde passou a infância, onde o sentimentalismo ultrapassa os limites e acaba soando mais falsa do que qualquer outra recordação do personagem. 

Interpretado brilhantemente por Jamie Foxx, o ator encarna Ray Charles, se remexendo enquanto toca, se coçando pelo vício em heroína...os trejeitos de Ray Charles foram absorvidos pelo ator, que ganhou o merecido Oscar (curiosidade: dos cinco atores indicados ao Oscar no ano de 2005, apenas Clint Eastwood interpretou um personagem fictício, pelo filme Menina de Ouro).

O filme foi indicado a 6 Oscars (Filme, Diretor - Taylor Hackford, Figurino, Montagem, Ator - Jamie Foxx, Mixagem de Som, tendo vencido essas duas últimas). 

Ray é um pouco longo demais, suas 2h30m são ainda mais comprometidas pelas quebras de ritmo provocadas pelos flashbacks, mas retratar Ray de maneira verossímil através da excelente atuação de Jamie Foxx salvam o filme de ser ruim (além da ótima trilha sonora composta pelos hits do cantor, que o deixam ainda mais divertido).

Nota: 7,5/10

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Os Melhores Anos de Nossas Vidas/The Best Years Of Our Lives (1946)



Nunca fui uma pessoa criativa. Não conseguia (e ainda não consigo) ter ideias para criar estórias, desenhos, músicas, qualquer coisa. Por isso, o sonho de ser roteirista sempre foi um obstáculo para mim: a área que eu mais admiro, e a que provavelmente mais teria dificuldade em exercer. Mas, algum tempo depois de assistir Manchester À Beira-Mar (meu filme preferido), a vontade de escrever roteiros sobre personagens quebrados se tornou cada vez mais forte, quando, um dia, tive a ideia de escrever um estória sobre um homem que volta da guerra e tem que lidar com seus "inimigos interiores" e aprender a viver sua vida como era antes. Finalmente uma ideia genial!
...se não tivesse sido filmada há 72 anos.

Três soldados americanos enfrentam dificuldades de readaptação ao voltar para casa após a Segunda Guerra Mundial.

Com quase 3h de duração, o maior problema do filme é demorar um pouco mais do que o necessário para ficar interessante. Após aproximadamente 1h20m de projeção, os conflitos começam a se estabelecer de verdade para todos os personagens. Até chegar nesse ponto, a trama mais interessante era a de Homer Parrish (Harold Russell), que tem as mãos amputadas na guerra e precisa aprender a conviver principalmente com o julgamento de sua família e da sociedade. Infelizmente, além de ser a história mais interessante, é também a menos explorada, dando preferência às de Fred Derry (Dana Andrews) e Al Stephenson (Frederic March). Na verdade, o único personagem afetado desde o princípio pela guerra é Homer. Tanto Fred quanto Al têm arcos interessantes, mas eles tomam um pouco mais de tempo para serem desenvolvidos, o que torna o filme entediante de início. Apesar disso, uma das melhores cenas de Os Melhores Anos de Nossas Vidas se passa justamente em seu início, quando os soldados finalmente reencontram suas famílias

Aliás, o desenvolvimento de ambos os personagens é um dos maiores acertos do roteiro. O que no início parecia ser perfeito começa a desmoronar cada vez mais, a mudança psicológica dos personagens (especialmente de Fred) torna o começo tedioso do filme quase redimível. Outro ponto interessante que o roteiro aborda de maneira sutil é que os três veteranos atuaram em áreas diferentes na guerra: Homer era soldado na Marinha, Fred bombardeava os inimigos pelo ar, enquanto Al era soldado por terra; ou seja, não importa em qual parte da guerra a pessoa esteja, ela destrói emocionalmente a pessoa da mesma forma, deixando claro que os melhores anos da vida dos personagens na verdade foram antes da guerra mudar suas vidas.

O diretor William Wyler também merece destaque no filme. Trabalhando com a movimentação dos atores e da câmera, estabelece visualmente quando um personagem apoia o outro em uma certa discussão, ou quando a conversa muda de tom, ou até mesmo quando certo personagem é agressivo com outros, o filmando de baixo para cima e ocupando quase o quadro todo, o transformando em uma figura quase monstruosa. Outro momento que vale o crédito é um em que Wyler utiliza os vários espelhos de um banheiro para filmar de maneira elegante duas personagens conversando, movimentando a câmera e fazendo o plano ser ainda mais interessante de ser assistido. O diretor também prefere ser mais sutil em alguns momentos importantes do filme, como no momento em que Homer reencontra sua família, que se assusta ao ver que o ente querido não tem mais as mãos. Um diretor menos experiente faria close-ups na família de Homer, ou em seus ganchos (ou nos dois), mas Wyler sabe que o espectador entende aquele momento sem precisar jogar na cara o que acontece.

Os três atores principais traduzem com clareza todos os conflitos e as mudanças que seus personagens passam durante o filme. Destaco a atuação de Harold Russell, que na verdade não era ator, mas sim um veterano da Segunda Guerra. Harold foi o primeiro ator não-profissional a ganhar um Oscar, fato que veio a se repetir apenas em 1985. Porém, Myrna Loy (que interpreta a esposa de Al, Milly) atua de maneira confusa, quando em alguns momentos ela parece triste ou com vergonha de algo, mas no plano seguinte demonstra felicidade com a mesma situação.

Outro fato importante de ressaltar é que o filme foi lançado apenas um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial, o que pode explicar o fato de vencer 7 dos 8 Oscars a que foi indicado: Filme, Direção, Ator - Frederic March, Ator Coadjuvante - Harold Russell, Roteiro, Trilha Sonora, Fotografia e Mixagem de Som, tendo perdido apenas o último (além de um prêmio especial para Harold Russell por "trazer coragem e esperança para os veteranos de guerra").

Os Melhores Anos de Nossas Vidas pode ser um pouco longo demais e arrastado no início, mas se redime pela construção dos personagens e a direção de Wyler.

Nota: 8,0/10

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O Príncipe das Marés/The Prince Of Tides (1991)


Há algum tempo, estou fazendo uma maratona dos filmes indicados/vencedores do Oscar. Alguns desses filmes são desconhecidos pelo público em geral, quase todas as vezes por ter um filme mais famoso no ano (As Horas em 2002, Boa Noite e Boa Sorte em 2005, Sideways em 2004...filmes tão bons quanto os renomados do ano, mas esquecidos). E esse foi o caso de O Príncipe das Marés, dirigido por Barbra Streisand. Em um ano onde os indicados eram ("apenas") O Silêncio dos Inocentes, e JFK, é comum não prestar tanta atenção nos outros indicados que nem se ouviram falar...mas não se imagina que reservam uma grata surpresa ao assistir.

Tom Wingo (Nick Nolte) é um treinador de futebol americano desempregado que vive na Carolina do Sul. Quando sua irmã, Savannah (Melinda Dillon) tenta cometer suicídio, ele vai a Nova York para apoiá-la, e lá se envolve com Susan Lowenstein (Barbra Streisand), a psiquiatra que cuida dela.

Ao ler esta sinopse, fiquei com um pé atrás antes de assistir ao filme; nunca fui muito fã de filmes românticos, e pior: a motivação para tal romance acontecer parecia um tanto quanto exagerada e egoísta, já que a sinopse faz parecer que Tom e Lowenstein ignoram o fato de Savannah ter tentado tirar a própria vida, e apenas vivem um amor no filme. Pelo contrário: durante boa parte da trama, esse tal relacionamento amoroso é praticamente ignorado. Em poucos momentos Lowenstein e Tom se encontram fora do consultório da psiquiatra, onde, na verdade, ela pergunta a Tom como fora sua vida e como a irmã era na infância.

Barbra Streisand conduz o filme da maneira certa, expressando sonora e visualmente todo o caos de Nova York, deixando Tom pressionado por carros e pelas pessoas, com o som irritante de várias buzinas ao mesmo tempo, refletindo também a irmã do Tom, uma personagem mais caótica que o irmão. Essa imagem se opõe à criada quando o protagonista está na Carolina do Sul, cidade que tanto ama por ser mais pacífica, onde se encontra rodeado por sua família, especialmente suas filhas.





Além disso, a diretora consegue expressar muito bem com um simples plano o distanciamento que Tom possui com sua esposa, Sally (Blythe Danner). Em outro momento, quando Lowenstein revela ter um marido, a figura dele em um pôster parece formar uma barreira entre os dois.




Vale ressaltar que isso só é possível pela excelente fotografia de Stephen Goldblatt, que capta estes e outros momentos de maneira belíssima, fazendo com que o filme seja uma experiência visual incrível.

Porém, o grande ponto forte do filme é o roteiro: mostrando a origem da família de Tom, podemos entender todos o que moldou a personalidade de cada um deles, sendo Tom um personagem extremamente sarcástico e tentando sempre contar piadas para "quebrar o gelo", e Savannah preferindo esquecer a cidade interiorana onde passou a infância, preferindo viver a fase adulta em uma cidade com a atmosfera contrária.

Dentre as atuações, o destaque é para Nick Nolte, que interpreta Tom Wingo como um personagem real, que convence mesmo no lado sarcástico quanto nos lados mais íntimos, quando conta algo de sua vida.

Porém, o filme peca quando ao chegar nos momentos finais. A partir do momento em que conhecemos o marido de Lowenstein, ele se apresenta como um "vilão" frágil, sendo um personagem tão arrogante que em nenhum momento parece uma ameaça para o convívio entre Tom e Susan. Por exemplo, em certo momento, ele convida o protagonista para um jantar em sua casa apenas para insultá-lo na frente de seus amigos e (pior) de sua esposa, agindo de maneira tão imbecil que fica claro desde o começo qual será a reação de Susan ao presenciar tal acontecimento. Além disso, também no final do filme, os dramas psicológicos que envolviam o passado de Savannah e Tom que eram o destaque da trama são abandonados, dando prioridade ao dito romance entre o protagonista e a psiquiatra, que enfraquecem consideravelmente o filme.

O filme foi indicado a 7 Oscars (Filme, Ator - Nick Nolte, Atriz coadjuvante - Kate Nelligan, Roteiro adaptado, Trilha Sonora, Fotografia e Direção de Arte). Mereceria vencer alguma dessas? Talvez Fotografia, mas os concorrentes no mesmo ano eram muito mais fortes. Apesar de começar melhor do que termina, O Príncipe das Marés é uma pérola injustamente esquecida e perdida durante o tempo que merece mais atenção do público.

Nota: 9,0/10