segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O Homem Elefante/The Elephant Man (1980)



É comum ter certas frustrações com algo que não saiu como o esperado, ou ter a impressão de que, a cada dia, a vida fica mais curta e os sonhos ficam mais difíceis de serem alcançados, algo que é alvo de piadas de extremo mal gosto atualmente, e digo isso sendo um grande apreciador do humor negro; romantizar uma doença séria como a Depressão, que afeta milhares de pessoas ao redor do mundo e que é imperceptível por muitas vezes acarreta a famosa história do "menino que gritava 'lobo'". Algo que começa como uma piada pode se tornar sério após algum tempo, e isso só é descoberto quando uma tragédia aconteceu. Porém, algumas pessoas com mais dificuldades que nós são, admiravelmente, mais otimistas e por vezes até mais felizes que as pessoas que, às vezes, parecem ter tudo nas mãos e ainda assim são infelizes (e, com isso, não estou julgando a felicidade ou a tristeza de cada um, você entende os seus problemas e eu não tenho a menor autoridade de falar sobre eles).

O Homem Elefante foi baseado em fatos, e narra a história de Frederick Treves (Anthony Hopkins), um cirurgião inglês que resgata John Merrick (John Hurt), um homem com uma severa desfiguração corporal que fazia parte de um "show de horrores" de um circo, onde era conhecido como ""O Homem Elefante".

Um ponto importante de O Homem Elefante (rimou) é que seus personagens não têm suas definições claras, como puros heróis ou vilões. O dono do circo utilizava a imagem "assustadora" de Merrick para ganhar dinheiro, é verdade; mas se o circo não existisse, como seria a vida do homem desfigurado? Ele provavelmente não teria emprego, não teria o que comer, viveria escondido, talvez até fosse espancado na rua diversas vezes. Por mais horrível que seja a forma de vida de ambos, talvez seria pior se não fosse assim. Por outro lado, Treves parece usar a desfiguração de John para se provar um bom doutor, por vezes mostrando como é incrível sua deformidade; ou seja, ambos exploram as peculiaridades do homem para ganhar dinheiro, cada um de sua forma. Uma pena que o roteiro prefira deixar claro em alguns momentos as questões impostas pelo filme com diálogos expositivos e óbvios. E é um irônico como o cineasta conhecido por fazer filmes confusos tenha permitido explicações de algo ainda mais claro

Dirigido por David Lynch, o longa é denso e pessimista, e a fotografia em preto e branco ajuda a reforçar esse sentimento, como se a vida do personagem-título fosse desbotada, diferente de todas as outras. Além disso, o filme é silencioso, a quase ausência de trilha sonora deixa a atmosfera ainda mais solitária e intimista. O andamento da trama é lento, o que pode atrapalhar um pouco a conexão com o filme, pois não há grandes acontecimentos até o terceiro ato, mas isto dá espaço para o desenvolvimento da relação de seus personagens principais e seus dilemas pessoais. Ainda assim, não é uma história para assistir e se divertir, tampouco terminá-la feliz. Recomendo não o assistir em uma tarde ensolarada.

* Off-topic: este foi o primeiro filme de David Lynch que tive o prazer de assistir, pretendo me aprofundar na extensa obra desse diretor tão renomado atualmente *

Interpretando John Merrick, John Hurt teve um difícil trabalho em dar vida a seu personagem, principalmente com uma pesada maquiagem por cima, tendo como recursos apenas seus olhos e sua voz para tornar o homem real, os utilizando com maestria, compondo um personagem inocente e por muitas vezes assustado, agindo por vezes de maneira infantil, mas também com grande admiração por Frederick Treves, que considera seu amigo e uma pessoa "muito amável". Ao seu lado, Anthony Hopkins constrói o cirurgião como um homem inicialmente apático, colocando o trabalho e a curiosidade pelo Homem Elefante acima de tudo. Porém, a amizade e o respeito pela evolução do amigo toma conta do médico, o tratando de igual para igual, e não como um pobre coitado. [Até o final desse parágrafo, há um spoiler de diálogo que pode impactar no filme]. Um bom exemplo disso é quando Merrick pergunta ao cirurgião se sua doença tem cura. Treves não hesita em responder negativamente, apesar de demonstrar certa pena do homem.

Porém, o filme peca ainda no roteiro. Além de seus diálogos que expõem as temáticas e questionamentos da trama, a quantidade de Deus Ex Machina (quando a situação se resolve por uma coincidência, ou porque o roteiro decidiu que aquilo deveria ser resolvido de alguma forma) pesa um pouco em sua naturalidade. Os obstáculos são resolvidos de um segundo para o outro, com um personagem aparecendo na hora certa para salvar o que acontece.

O Homem Elefante impõe questões importantes, ainda mais se o tomarmos como uma metáfora para o racismo e a homofobia. Não é tão agradável de assistir (como não poderia ser, mesmo), possui alguns diálogos que explicam as questões que o espectador já entende e alguns obstáculos resolvidos de maneira muito fácil podem diminuir ainda mais a intensidade da história, mas as relações de seus personagens, os dilemas impostos e suas multidimensionalidades são ainda mais relevantes.

O filme foi indicado a 8 Oscars (Filme, Diretor, Ator - John Hurt, Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de Arte, Trilha Sonora e Montagem), mas não venceu nenhum. Infelizmente, John Hurt teve o azar de concorrer no mesmo ano em que Robert De Niro fez uma das melhores atuações do cinema, interpretando Jake La Motta, do filme Touro Indomável, fazendo a derrota do primeiro ser compreensível.

Nota: 8,5/10

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