sábado, 6 de outubro de 2018

Ray (2004)



Filmes biográficos de celebridades nunca me chamaram muita atenção, por algumas vezes deixar a impressão de que o único motivo de tais filmes terem sido feitos com a única intenção de fazer o público chorar e ter uma mensagem motivacional (ainda mais se tal personagem possuir alguma deficiência). O problema é que, assim, os filmes parecem explorar seus personagens de maneira maniqueísta, tratando-os como seres impecáveis ou como "coitadinhos". Mas, felizmente, Ray adota a abordagem contrária, mostrando justamente os defeitos de personalidade do mestre da música soul americana, Ray Charles, como seu vício em drogas e as diversas traições que cometeu enquanto estava na estrada.

(Devaneio: spoilers de filmes biográficos são spoilers? Hmm...)

E o fato de seus defeitos serem demonstrados durante todo o filme dá um toque especial a Ray, pois dá tridimensionalidade ao "personagem", o transformando em uma pessoa real (e o quão irônico é perceber que, muitas vezes os filmes baseados em histórias reais têm personagens mais falsos que os longas totalmente fictícios). Seria muito fácil mostrar o quanto foi difícil para Ray Charles tocar piano por ser cego, como sua vida fora difícil e como sua deficiência o transforma em um ser intocável e digno de inspiração. Vemos todos os problemas de Ray, seus desvios de caráter, que ele foi uma pessoa que errou, e isso, na verdade, deixa a pessoa ainda mais admirável, já que conseguiu superar todas as adversidades (ou quase todas).

Mas Ray tem seus primeiros problemas quando começam os flashbacks. Inseridos quase sempre a qualquer momento no filme, as cenas que se passam na infância de Ray Charles não soam naturais; o filme pára em um determinado momento para mostrar o passado de Ray que não há nenhuma ligação com a cena anterior para também voltar em algo que não há qualquer conexão com o que o flashback acabou de mostrar, tirando a fluidez do filme. 

O filme também tem sua parcela de sentimentalismo, e essa parcela diz respeito às memórias de Ray, e isso é demonstrado especialmente pela cinematografia e direção de arte, que passam dos tons mais escuros e desbotados dos tempos "atuais" para os verdes saturados da juventude do personagem. Na verdade, inicialmente achei que isso estaria ligado ao fato de, na infância, Ray ainda enxergar, por isso as cores estariam mais vivas, porém, (spoiler) após o garoto perder a visão, a cinematografia continua a mesma, jogando toda a minha teoria no lixo. Mas esses dois fatores apenas contribuem para a tentativa de forçar o choro do público, mostrando também através do roteiro a "dura infância" do garoto e como isso afeta também a sua vida adulta, já que o personagem constantemente sofre de alucinações em momentos aleatórios, e servem para pouca coisa. Mas apesar das quebras de ritmo (que pesam ainda mais as longas 2h30m do filme), os flashbacks não são um desperdício total, por nos apresentar uma das melhores personagens do filme, Aretha Robinson, a mãe de Ray. Os conflitos da personagem (que prefiro não me aprofundar para poupar mais possíveis spoilers) são a chave para não fazer toda a falta de fluidez acontecer em vão.

O filme derrapa ainda mais nas cenas finais, quando Ray tem algumas alucinações e reencontra sua família na casa onde passou a infância, onde o sentimentalismo ultrapassa os limites e acaba soando mais falsa do que qualquer outra recordação do personagem. 

Interpretado brilhantemente por Jamie Foxx, o ator encarna Ray Charles, se remexendo enquanto toca, se coçando pelo vício em heroína...os trejeitos de Ray Charles foram absorvidos pelo ator, que ganhou o merecido Oscar (curiosidade: dos cinco atores indicados ao Oscar no ano de 2005, apenas Clint Eastwood interpretou um personagem fictício, pelo filme Menina de Ouro).

O filme foi indicado a 6 Oscars (Filme, Diretor - Taylor Hackford, Figurino, Montagem, Ator - Jamie Foxx, Mixagem de Som, tendo vencido essas duas últimas). 

Ray é um pouco longo demais, suas 2h30m são ainda mais comprometidas pelas quebras de ritmo provocadas pelos flashbacks, mas retratar Ray de maneira verossímil através da excelente atuação de Jamie Foxx salvam o filme de ser ruim (além da ótima trilha sonora composta pelos hits do cantor, que o deixam ainda mais divertido).

Nota: 7,5/10

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